Tuesday, March 14, 2006

Procura-se-capítulo 2 : O vampiro vingador

(Por: Renata Cezimbra)

Depois de todo o pesadelo que eu passara na boate, descansava em casa sem conseguir dormir com várias compressas de gelo, quando escutei a campainha às 6:30 da manhã e pensei:
- Que merda, mas quem será a essa hora?!
Fui abrir a porta e quando vi, era o irmão do meu colega trazendo a Mari totalmente bêbada dizendo:
- Vim trazer a sua irmã bela adormecida pra casa.
- Obrigada e espero que da próxima o seu mano me avise quando for levar a Mari pras noitadas dele, pois eu tava morta de preocupação, pensando no que tinha acontecido com ela- falei, dando mostras de que não estava nada feliz com o ocorrido naquele momento.
- Tá, falo pra ele, mas acho que ele não vai me escutar- disse ele, respirando o ar da manhã recém-chegada.
Nem liguei e ele se despediu depois de deixar a Mari dormindo no sofá, enquanto eu fechei a porta pra que ninguém visse o que ocorrera com ela, já que aqui os vizinhos eram muito faladores.
Com muito esforço e mesmo morrendo de dor nos pulsos e tornozelos, levei a Mari pra cima pra que ela tomasse um banho e fosse dormir, já que eu não ia querer que o pai percebesse o porre de bebida que ela tinha tomado.
Foi quando eu escutei uma batida na porta da cozinha e fui ver quem era e, pra minha surpresa era o Mercúrio e perguntei:
- O que você tá fazendo aqui, não era pra você estar ajudando o seu patrão morto vivo na boate?
- Era, mas ele ainda tá muito alterado e depois do rolo com o Fernandes, tive que trancá-lo num dos quartos e colocar reforço na porta pra ele não sair, se não, você nem imaginaria o que ele ia fazer- respondeu o Mercúrio, com cara de quem tava cansado.
- Já sei, ele ia sair me procurando pensando que eu sou a Xica da Silva pra me matar - falei, em seguida perguntando:
- Como é que você conseguiu manter o cara preso, sendo que ele tem mil vezes mais força que você?
- Não era à toa que os caras me chamavam de “O Mago” na escola - respondeu o Mercúrio, sorrindo.
Lembrei que o Mercúrio sempre foi um cara muito estranho, que lia livros de ocultismo, feitiçaria, vampirismo e outros que eu nem lembrava mais, fortemente influenciado pelo pai, que era um cara igualmente estranho: todo mundo dizia que ele era bruxo, mas eu nunca acreditei nessas coisas, sendo que eu quase não falava com o Mercúrio, já que ele sempre fora meio avesso a companhias.
Então perguntei:
- O que você quer? Você não acha que é um pouco cedo pra vir aqui, pois como você deve estar vendo, estou um tanto mal depois de tudo isso.
- Queria conversar com você sobre isso que você viu ontem na boate, espero que você queira me ouvir- disse ele, meio receoso da minha reação.
- Bem que eu gostaria de saber o que eu tenho a ver com isso, já que o que houve ontem foi por causa da minha semelhança com essa tal Xica, que eu receio que seja a da Silva - respondi querendo logo colocar isso em pratos limpos e imaginando o porquê da confusão feita pelo Fernandes baseada nas descobertas que eu fizera.
- Você adivinhou e, se você não se importa, quero te contar isso em uma hora que você não esteja tão mal, que tal se nos encontrarmos hoje à noite na boate e depois irmos na velha pista de corrida do fim da cidade? - me disse ele, propondo um encontro.
Quando ele me respondeu a primeira parte da frase, eu queria me esconder num buraco e nunca mais sair, mas, eu me acalmei e respondi:
- Tá bom, eu vou mesmo sendo muito tarde e longe, mas quando eu estiver lá, quero que me conte tudo, não me esconda nada.
Aí ele se despediu e foi embora, enquanto eu pensava como uma coisa daquelas era possível e porque justo comigo.
Só não chamei a polícia nisso porque não queria preocupar meus pais, pois eles já tinham problemas demais pra resolver e eu já tinha idade suficiente pra resolver os meus.
Então decidi procurar coisas sobre Xica da Silva na biblioteca que ficava no escritório do meu pai pra saber mais sobre ela.
Quando cheguei lá, peguei a escada que estava perto da janela e a coloquei na prateleira onde estavam os fichários com as informações biográficas de vários nomes históricos que o pai catava mais que as pulgas do Pingo, nosso cachorro de estimação.
Peguei dois fichários por vez, já que eles eram um pouco pesados e eu não queria me arriscar a levar um tombo e, consequentemente, acordar a casa toda, já que aqui todo mundo tinha o sono mais leve que penas.
Já com todos os fichários na escrivaninha do pai, comecei a olhar um por um na tentativa de encontrar algo sobre Xica da Silva, quando achei uma extensa biografia, que dizia tudo sobre ela e esse tudo me deixava admirada e espantada, desde o seu início na casa de um senhor que não soube ler direito o nome até virar “rainha” através de seu concubinato com o contratador João Fernandes de Oliveira.
Também fiquei estarrecida com o que ela fazia quando alguém dava em cima de seu homem ou lhe traía: desde mandar mutilar até matar, mas o pior que eu vi foi quando ela mandou matar um escravo chamado Damião e fazer feijoada com a carne do coitado. Claro que muita gente dizia que aquilo era só lenda, mas quem podia garantir que sim?
Tive vontade de vomitar quando li algumas das coisas que o pai tinha descoberto, mas o que me deixou espantada mesmo foi quando vi umas folhas que pareciam estar em branco, se não fosse o fato de elas estarem amareladas pelo tempo, já que pela minha análise elas pareciam ter mais de 200 anos. Não tinha entendido o que era aquilo até que peguei a folha com as mãos dentro de um par de luvas que encontrei numa gaveta de baixo e senti um cheiro que parecia de suco de limão mofado pelo tempo. Lógico que eu estranhei, já que o pai cuidava muito as coisas que tinha quando levava lanches para o escritório, além de detestar suco de limão. Eu não soube o que fazer até que me lembrei de um procedimento que vi num livro: peguei uma vela na cozinha, acendi sobre a escrivaninha e pus a primeira folha perto da chama, que revelou um monte de letras em estilo antigo e fiz isso com as outras, que revelaram a mesma coisa.
Reuni todas elas e comecei a lê-las, ficando terrivelmente espantada ao ver que aquelas folhas eram do diário de João Fernandes da época de 1775 e com o que estava escrito:“12/02/1775 - Meu diário amigo e confidente: Já faz 4 anos que eu deixei o Tijuco e minha querida Xica, ah, tu não sabes como sofro e sinto ódio, ódio que me corrói a alma, me torna cada dia mais monstro, isso que tenho daqueles que tão mal me fizeram, ah, como quero matar esses que tão mal me causaram e tanto sofrimento me impuseram!
Sim, eu quero matá-los, beber seu sangue, cortá-los em pedaços, quero vê-los gritando de dor quando eu torturá-los no dia de minha volta, ah eu quero!....”
Continuei lendo, ficando ainda mais estarrecida quando vi uma das maldades da qual ele fora capaz para se vingar:“07/05/1775 - Depois de quase 30 anos, finalmente consegui o que mais queria: me vingar daquele que foi o responsável pela condenação de Xica à fogueira e consequentemente pelo meu casamento com a bruxa da Violante. Como o fiz? Muito simples, amigo: mandei jogá-lo num poço sem água, nem comida para que ele morra sem que ninguém possa achá-lo e ajudá-lo. Espero que ele grite até não poder mais e morra logo de uma vez, pois não suporto pensar que ele ainda vive depois de todo o mal que causou a mim e à minha querida Xica.
Quando terminei de ler tudo, 40 folhas tamanho pergaminho no total, fiquei chocada com tudo o que li, nunca imaginando que uma pessoa fosse capaz de fazer tudo o que ele fez por amor e em nome de uma coisa: vingança, um prato que se come frio e pelas bordas. Claro que tinha outras maldades piores, mas não vou citar, pois os detalhes conseguem ser os piores possíveis.
Nem me dei conta de que horas eram até que vi no relógio da parede que já eram 9:15 da manhã. Então peguei tudo que eu tinha tirado do lugar e coloquei de volta cuidadosamente pra que o pai não percebesse que eu tinha mexido nas coisas dele, pois ele detestava que a gente mexesse nas coisas dele e também porque ele já estava vindo para o escritório, já que o pai acordava cedo pra organizar as coisas dele.
Saí o mais rápido que pude pra o pai não perceber que eu estive no escritório, porque ele também não gostava que a gente entrasse no lugar sem a permissão dele, pois só quem podia fazê-lo era a mãe. Enquanto andava pelo corredor, ainda estava apavorada com as descobertas que eu fizera e perguntava pra mim mesma:
- Onde será que o pai descobriu tudo isso e porque ele nunca contou pra gente? O pai nunca esconde nada nem de mim, nem do resto da família, pois, se ele conta algo pra algum de nós, todo mundo tem que saber, nem que seja depois.
Era estranho, mas eu logo pensei numa possibilidade, por mais esquisita e improvável que ela fosse: que ele sabia de algo que nós nem imaginávamos e que esse algo tivesse a ver com o motivo da situação que eu passara na madrugada de domingo na boate “Casa de Portugal”. Será que? Não, eu só podia estar imaginando coisas, se eu tivesse imaginado que aquele dia seria de inesperadas descobertas.
O dia correu até normal lá em casa, apesar de eu não estar muito bem devido as coisas que eu descobrira.
Ninguém reparou em mim naquele dia, pois todos tinham ido na casa da Maria Alzira comer um churrasco e eu não fui, alegando que não me sentia bem por conta do cansaço decorrente da noite que eu passara na boate.
Então aproveitei pra ir na boate conversar com o Mercúrio, que estava preparando algumas coisas para mais uma noite. Encontrei ele perto de uma porta no segundo andar do local e lhe dei bom dia, perguntando:
- Ele ainda tá trancado aí e, podemos conversar? - e ao mesmo tempo, ouvindo uma gritaria daquelas de acordar até morto.
Ele me retribuiu a saudação e me respondeu:
- Ele ainda tá, e se você não se importa, vamos para o andar de baixo, pois o volume da voz do Cabral tá um bocado alto e impossibilita a gente de conversar direito.
Enquanto a gente saía pelo corredor, o Cabral gritava que nem um doido, socando a porta:
- Abre essa merda dessa porta, eu quero sair daqui, bosta! Vamos Mercúrio, abre isso aqui, porra!
A gente nem deu bola e fomos logo pro andar de baixo, onde comecei a contar as descobertas que fizera, deixando o Mercúrio apavorado e me dizendo:
- Cara, então você acha que o seu pai sabe mais do que aparenta?
- Olha, eu acho que sim, pois o papai não esconderia algo assim se não fosse tão sério- respondi, muito aparvalhada e sem conseguir ordenar meus pensamentos.
- Mas por que ele faria isso? Pelo que eu sei, o seu pai confia pra caramba na sua mãe e não esconde nada dela, a não ser que ela saiba disso também e nunca contou pra você a pedido do seu pai - disse o Mercúrio, pensativo.
- Eu conheço a minha mãe e sei que ela não faria isso a não ser que ela não queira que eu saiba de algo, mas eu sei que não tem nada- falei, nem imaginando que a verdade estava mais perto do que eu supunha.
Então me despedi dele, enquanto ele me perguntou:
- Você ainda vai lá na pista pra gente conversar?
- Acho que sim, se não tiver nada pra fazer de noite - respondi, já saindo. - O assunto é importante, então é melhor você ir- respondeu o Mercúrio.
Então saí e ele se despediu, enquanto eu ainda escutava os gritos do Cabral. Pensava em tudo que tinha descoberto, lembrando que alguns dos nomes escritos na “lista negra” do Fernandes eram bem iguais aos nomes de uns vizinhos nossos que moravam numa casa na frente da minha. Era coincidência demais, mas não liguei.
Não liguei pra esse detalhe até chegar em casa, mas quando cheguei, vi o Gonçalo sentado na sala, estranhando que ele estivesse lá em casa antes do pai chegar, pois ele só vinha quando o Mauro estava. Então perguntei:
- Bom dia, sr. Gonçalo, o que você faz aqui, eu sei que você costuma vir quando o pai está.
- Não vim falar com seu pai, e sim conversar com você - disse ele, demonstrando em sua face que o assunto era sério.
Não consegui entender o que era aquilo e perguntei o que ele queria. Ele me respondeu:- Sei o que houve com você ontem, Patrícia, melhor te contar de uma vez toda a verdade sobre mim e minha família.
- Não entendo, considero muito o senhor e sua família e mesmo que a verdade seja grave, não vou me importar - falei, demonstrando minha sempre ativa compreensão.
- Se você imaginasse como sofro por ter mentido pra você esses anos todos, pra uma moça de tão bom coração- me disse ele em prantos e me mostrando algo muito inesperado: um par de caninos iguais aos que eu vira na noite anterior.
Cara, fiquei apavorada, começando a gritar feito louca e querendo correr, mas quando vi meu pai chegar do passeio com o resto da minha família, prostrar-se na porta apavorado e dizer:
- Gonçalo, você não devia ter feito isso! - fiquei um tanto espantada, ao mesmo tempo brava e perguntei:
- Pai, que história é essa que você nunca me contou?!
Logo notei que ele ficou constrangido, tentando articular as palavras, mas sem conseguir e logo eu descobri o porquê da Flor ter me dito o que disse na frente da locadora, pois ela era filha dele e consequentemente, sabia de muitas coisas dele.
Então eu, mais calma depois de ver a sinceridade no rosto do Gonçalo, sentei na sala e comecei a ouvi-lo contar tudo sobre a vida dele: quando ele era capitão-mor, teve vários problemas devido a sua filha ter sido acusada de ser bruxa, seu envolvimento com o tráfico de diamantes e sua relação com Fernandes. Quando ele terminou, me perguntou:
- Agora você entende o porque da Flor ter te alertado? É pra que ele não me ache e não me mate. Fiquei muito comovida com a atitude da Flor em relação ao pai e pensei:
- É por isso que eu te admiro demais, porque você não se importa em se arriscar por quem você ama, minha super amiga! - e depois abracei o Gonçalo, dizendo:
- Você me conhece desde pequena e sabe que eu adoro o senhor, não me importando com o que você foi ou deixou de ser.
Ele falou emocionado:
- Você é uma moça maravilhosa, não me admira que o Mauro e a Titina tenham orgulho de você!
Sorri sem parar aquela hora, sem imaginar que eu podia estar acendendo um estopim para uma tragédia.
Então o Gonçalo ficou pra conversar com o pai e foi pro escritório com ele pra ajudá-lo com as coisas da aula de biologia de segunda, já que os dois davam aula dessa matéria na escola onde a Lia estudava.
Ainda estava surpreendida com os fatos que ocorreram até aquela hora, quando a Mila chegou lá em casa, me dizendo meio receosa:
- Patty querida, estava na porta pronta pra entrar, quando escutei a confusão que houve, então, vou aproveitar essa deixa pra te dizer uma coisa, sei que você sofreu o baque da revelação do Gonçalo, mas eu preciso te dizer que os meus padrinhos José Maria, Elvira e Paulo também são vampiros.
- Que foi que você disse, não tô acreditando!- falei, sendo que a minha voz não queria sair mediante tamanho susto.
Percebi logo que a Mila ficou com cara de cachorro sem dono e exclamei: - Cara, o meu dia hoje tá sendo um dos mais surpreendentes da minha vida!
- Sei que é, mas o que eu posso fazer, uma hora você ia ter que saber - disse a Mila com aquele típico jeito criança dela.
Só agora eu tinha entendido o porquê da Elvira e o Gonçalo não se gostarem e viverem sempre discutindo, se ofendendo e muitas vezes quase saindo nos tapas. Além disso, eu nunca imaginei isso por conta deles nunca agirem como quem eles realmente eram, pois eles se vestiam com roupas normais e com cores alegres, andavam tranqüilamente de dia com óculos escuros e outras coisas. Claro que eu achava esquisito várias pessoas usarem um mesmo apetrecho, mas eu pensava que eles tinham esse gosto em comum.
Olhei a Mila e perguntei:
- Por que você não me contou isso antes?
- Porque eu achei que você os odiaria, me odiaria e não seria mais minha amiga!- respondeu a Mila quase chorando.
- Mesmo que fosse coisa pior, eu nunca deixaria de ser sua amiga, minha lindinha - falei, abraçando aquela moça de cabelos castanhos, olhos verdes, magra, com expressão de menina assustada no rosto e com uma infinita bondade que fazia ela parecer uma criança apesar dela ter a minha idade.
Então convidei a Mila pra sair pro shopping e ela aceitou. Passamos a tarde no shopping conversando, tomando sorvete e olhando as vitrines, tentando esquecer os fatos até agora ocorridos, mas sabendo que não seria possível. Uma hora nós encontramos os padrinhos da Mila na praça de alimentação e começamos a conversar quando o Paulo me olhou e perguntou:
- A Mila já te contou, não é?
Respondi que sim, mas que não me importava, pois eles sempre tinham me feito bem. Eles ficaram enternecidos e a Elvira disse, chamando-a pelo nome de batismo e acariciando o cabelo dela:
- Não é à toa que você é a melhor amiga da Emília, nossa princesa.
Passamos o resto do dia conversando sem parar, até que eu disse que precisava ir. Eles se despediram e eu retribuí, indo logo pra casa pra me preparar pro meu encontro com o Mercúrio.
Quando cheguei perto da vizinhança da minha casa, percebi que estava acontecendo alguma coisa na casa do Gonçalo e corri pra lá. Quando cheguei, vi que o Gonçalo estava lutando com um cara, que logo vi que era o Fernandes e falei:
- Pode ir parando aí mesmo, que você não vai fazer nada contra ele!
Ele se virou furioso e disse, tentando me pegar:
- Com que direito você me diz isso hein, garota?
- Com direito de uma pessoa que quer defender alguém que se redimiu e de quem gosta muito! - respondi tirando minha cruz do pescoço e metendo ela na cara do Fernandes, mesmo sabendo que estava arriscando minha vida.
Ele deu um recuo daqueles, virando a cara pro lado e dizendo:
- Eu volto pra te matar, capitão merda e pra acabar com você, sua insolente!
- Vai pra puta que te pariu, você não vale nada! - gritei, enquanto ele saía furioso da casa do Gonçalo.
O Gonçalo me olhou espantado, me abraçou e disse:
- Essa foi uma grande demonstração de coragem, menina, você podia ter sido morta por ele! Muito obrigado!
- Você me conhece desde novinha e sabe que nunca tive medo de nada e nem de ninguém - respondi sorrindo.
Saí de lá depois de me despedir e entrei em casa me deparando com o meu pai apavorado, que perguntou:
- Patty, que confusão foi aquela na casa do Gonçalo?!
Contei o que acontecera, o que deixou o meu pai muito assustado e me abraçando dizendo:
- Meu Deus filha, você teve uma atitude muito nobre, mas se arriscou demais!
Agradeci o abraço e disse:
- Te amo muito pai e não se preocupe, só não quis deixar que o Gonçalo fosse morto por conta da loucura daquele bandido.
Naquela hora cheguei à conclusão de que tinha realmente acendido o pavio da bomba e que, a qualquer hora, ela explodiria.
Todos assistiam o Fantástico na tv enquanto eu saía pela porta dos fundos pra me encontrar com o Mercúrio na boate. Andei vários minutos até chegar lá e ver o cara me esperando na entrada dizendo:
- Boa noite moça, podemos ir agora.
Falei:
- Qual é o assunto? Não me enrole.
- Vamos chegar na pista e lá conversamos- respondeu o Mercúrio. Dali a pouco, vi o Cabral descendo com um uniforme de piloto que fazia ele parecer aqueles caras dos filmes de corridas. Ele falou:- Boa noite, quero te pedir desculpas pelo que te fiz na noite passada Patrícia, não estava de bom humor e não percebi a diferença entre você e a Xica. Depois de ficar horas trancado, pensei muito e percebi que era impossível você ser ela.
- Eu acho bom que você não irrite a Patty, pois ela ainda não tá muito bem depois da confusão que você aprontou - falou o Mercúrio, percebendo que eu estava com vontade de dizer todos os desaforos possíveis na cara do Cabral.
Nós embarcamos no carro que ele usaria na corrida e chegamos na pista clandestina em meia hora, vendo um bando de gente lotando a parte onde ficavam os espectadores que iam ver as loucuras automotivas feitas por aqueles pilotos, entre eles o Cabral, que se mostrava muito confiante. Eu e o Mercúrio ficamos na parte ”vip” do local, esperando a corrida começar.
Enquanto a corrida não começava, perguntei:
- Agora pode começar o assunto que você quer falar comigo?
- Sei que você está muito espantada com a sua semelhança com Xica da Silva, que é realmente impressionante. O que quero te dizer é sobre o que o Fernandes pretende- disse ele, olhando para os lados como se não quisesse que ninguém nos visse ou ouvisse.
- Acho que ele pretende fazer algo desagradável, pois pelo que eu vi, as intenções dele são as piores possíveis - falei, lembrando da confusão na casa do Gonçalo.
- É isso mesmo, o que ele é quer é matar quem fez mal à ele e a Xica e reencontrar o amor perdido dele, que ele pensa que é você- me disse ele, com cara de preocupado.
Contei à ele o que acontecera e falei:
- Estou estranhando, pois quando eu defendi o Gonçalo, ele me ameaçou de morte.
- Eu conheço esse tipo de criaturas, o cara só fez isso apenas pra te enganar, pra que você achasse que ele não quer nada com você - disse o Mercúrio.
- Se isso for verdade...- falei, interrompendo a frase quando o Mercúrio fez sinal me dizendo que a corrida ia começar.
Fiquei louca da vida, mas não pude fazer nada, pois quando ele se ligava numa coisa não havia Cristo que tirasse antes dele terminar de ver ou fazer.
Nessa hora, uma mulher alta, de roupa vermelha colante e cara da Bo Derek tirou um lenço da cintura e falou bem alto:
- Acelerar, preparar e já! - em seguida jogando o lenço pra frente, deu sinal pros caras começarem a correr. Todos saíram em disparada, sendo que o Cabral deixou os outros comendo poeira na pista enquanto ele corria sem parar e ria insanamente, querendo vencer.
Bem nessa hora, reparei que tinha um carro preto com uma teia de aranha no capô vindo na direção do Cabral. O Mercúrio também viu e começou a gritar:
- Cara, desvia pra esquerda que esse carro vai te atirar longe!
O motorista não escutou e nem percebeu quando levou uma batida na traseira desse carro que vinha a todo o vapor, com um motorista dizendo ensandecido:- Você vai morrer, sargento merda, vai morrer, vai morrer!
Quando vi que o Cabral não pôde evitar de perder o controle do carro e capotou 7 vezes, o Mercúrio foi voando pra lá e gritou pros que estavam na frente:
- Sai que eu quero passar merda, sai!
Fui atrás dele e vi ele tirar o Cabral de dentro do carro inconsciente pra depois ver o carro explodir e atirar faíscas por todo o lado. O vampiro acordou depois de 2 minutos nos braços do Mercúrio se recuperando em seguida e disse:
- Cara pensei que morreria, a batida foi super forte a ponto de me deixar inconsciente e quase me matar no meio de chamas - e em seguida ficou zangado e perguntou:
- Quem foi o porra que bateu em mim pra eu sofrer esse acidente?!
- Fui eu, por que sargento merda?! - gritou o Fernandes, avançando nele com uma estaca de madeira. Na mesma hora, o Mercúrio avançou no vampiro pra impedi-lo de matar o cara, mas foi atirado pro lado como um boneco enquanto o Cabral tentava escapar da fúria assassina do Fernandes sendo assistido por várias testemunhas incrédulas.
Com um movimento hábil, o Cabral atirou o Fernandes longe e me pegou no colo dizendo:- Vamos sair daqui, não quero que ele te pegue!
Eu quis gritar, mas o Mercúrio que estava com a gente em menos de 2 minutos depois de ter sido jogado longe me disse que era melhor eu ficar quieta.
Quando chegamos num lugar seguro, o Cabral me disse:
- Consegui manter o Fernandes longe enquanto escapava com você, mas acho melhor você se cuidar a partir de agora.
- É por causa dessa história que o Mercúrio me contou? Se for, o Fernandes tá perdendo o tempo dele, pois eu não acredito em reencarnação - falei seriamente.
- Mas então como você explica a sua semelhança com Xica da Silva? - perguntou o Cabral rindo.
- Existem muitas pessoas que são idênticas- rebati.
- Gente, vamos parar com isso, que não é hora de discutir- falou o Mercúrio. Nós paramos e minha vontade de ofender o Cabral tinha sumido não sei como. Perguntei:
- Cabral, por que o Fernandes pensa que sou a reencarnação da Xica?
- É porque ele perdeu-a num incêndio em 1875 em Bordéus - respondeu o Cabral, mostrando que não daria mais detalhes da história.
- Mas será que ele nunca pensou que ela pode estar viva? - perguntei.
- Olha, também cheguei a pensar nisso, mas não sei não - respondeu ele.
Fui pra casa depois de me despedir pra dormir, pois eu tinha faculdade no dia seguinte, mas, quando cheguei, fui abordada pelo Fernandes e disse:
- Não se aproxima, eu não quero conversa com você!
- Calma, não vou fazer nada contra você e sim te fazer uma proposta - disse o Fernandes, querendo que eu o convidasse pra entrar.
- Se for pra ser sua noivinha perdida, perdeu o seu tempo, pois eu não acredito nessas coisas- falei não disposta a conversar muito.
- Se você me deixar entrar, eu te explico o que é - disse ele.
Me aclamei e deixei, então entramos pelos fundos pro meu pai e a mãe não perceberem e perguntei:
- Que proposta é essa?
- Não pude deixar de ouvir o que você disse pra aquele merda sobre a Xica estar viva, então quero que você me ajude a achá-la, pois percebi que você é uma moça inteligente e corajosa - disse ele, que em seguida falou
:- Pra que você me ajude, que tal receber 3,5 milhões de dólares?
Cara, quando escutei a proposta, quase caí de costas, pois aquilo era irrecusável, mas perguntei:
- E se nós não a encontrarmos?
- Aí você sabe- respondeu ele com escárnio.
Percebi logo o que era e não gostei nem um pouco, mas engoli em seco, pois estava começando a acreditar naquelas coisas e não ficando nem um pouco feliz, porém, fiquei otimista e disse a ele que pensaria.
- Será que você não está vendo quanto vou te pagar? - perguntou ele incrédulo.
- É que se eu aceitar, vou ter que abrir mão de muitas coisas, então quero que me dê um tempo- respondi calma.
- Está bem, vou te dar uma semana pra isso- disse ele, indo embora sem se despedir.
Fui para o meu quarto sem que meus pais percebessem e pensei muito no que ele me dissera, mas, eu não imaginava que a partir dali eu estaria em constante perigo.

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