Procura-se-capítulo 3 : O inimigo oculto.
(Por: Renata Cezimbra)
Depois de ter uma péssima noite de sono após ter presenciado aquela confusão na pista, acordei pior do que costume e nem fui na faculdade depois de ligar pra reitoria avisando que faltaria porque estava com um mal estar.
Passei a manhã dormindo, quando fui acordada pela voz da minha mãe:
- Patty, o que aconteceu que você faltou aula? Você não tem esse costume.
- Eu sei, mas se eu te contasse o que aconteceu comigo nos últimos 2 dias, você não acreditaria!- falei ainda como se tivesse sonhando.
- Filha, se você me contar, a mamãe vai acreditar, pois já viu de tudo nessa vida- disse minha mãe, acariciando o meu rosto.
Quando contei tudo, desde o esbarrão na locadora até a proposta para encontrar Xica da Silva, ela ficou apavorada e me disse:
- Pelo amor de Deus, não faça amizade com ele e nem aceite a proposta desse amaldiçoado!
- Mãe, por acaso você sabe de alguma coisa que eu não sei? - perguntei, vendo que ela estava com a expressão de quem sabia mais do que aparentava.
Ela me contou que conhecia o Gonçalo desde muito jovem e que também sabia sobre o Fernandes e o nosso vizinho, mas que não contou a pedido do meu pai, pois achava que eu podia correr perigo e me disse pela segunda vez pra eu não aceitar essa proposta.
- Mas mãe, será que você e o pai sabem que esse dinheiro pode resolver definitivamente a nossa vida? Tanto você quanto o papai tem problemas e essa quantia pode resolver tudo, então é por isso que quero aceitar- falei, pensando neles mais do que em mim, pois eu sempre amei demais os dois.
- Eu sei filha, mas você tem idéia do perigo que vai correr, das coisas das quais vai ter que abrir mão e que o seu futuro pode ficar em jogo?! - perguntou minha mãe com seu senso de preocupação e proteção e me abraçando exatamente como quando eu era criança e corria pra chorar nos braços dela quando estava triste.
Depois disso, fui almoçar e decidi pegar minha bolsa pra sair e ver se esquecia tudo isso nem que fosse por algumas horas, quando ouvi a campainha e fui atender. Quando abri a porta não vi nada a não ser um papel vermelho amarrado em um barbante no chão.
Peguei, abri e li, ficando apavorada com o seu conteúdo:
“Nem pense em ajudar o Fernandes sua macaca miserável, se não lhe matarei!
Assinado: O Inimigo Oculto”
Além de ficar apavorada com o conteúdo do bilhete, fiquei enfurecida, pois eu nunca tinha sido chamada de macaca em toda a minha vida e nem iria admitir uma coisa daquelas, mas, se eu não sabia quem era o autor de tal ofensa, não poderia ofendê-lo e nem enfrentá-lo, pois se o fizesse, estaria correndo risco de vida, porque pelo jeito, o autor não estava de brincadeira.
Claro que podia ser uma brincadeira de mau gosto, mas logo descartei essa idéia porque alguma coisa me dizia que alguém desejava muito que eu não ajudasse o Fernandes a encontrar sua amada. Então achei melhor ir até a boate falar com o Mercúrio na tentativa de descobrir quem podia ter escrito tal ameaça.
Andei até lá olhando pra todos os lados, vendo se ninguém me seguia, já que todo o cuidado era pouco agora que estava em perigo. Podia até ser apenas um bilhete, mas meu senso de defesa dizia que eu tinha que me alertar.
Quando cheguei lá, dei um suspiro de alívio e entrei, dando de cara com o Cabral numa das mesas da frente e falei séria:
- Boa tarde.
- Olha Patty, tá certo que eu fiz o que não devia com você, mas acho que não é motivo pra você ficar tão fria comigo - disse ele sorrindo.
- Você sabia que eu estava com uma baita vontade de dizer todos os desaforos possíveis na sua cara? Só não o faço porque sei que o Mercúrio não ia gostar- falei séria outra vez.
- Olha se você não gosta de mim, o problema é seu e vai à merda, que é o melhor que você faz!- disse ele, me fazendo perceber que tinha mexido com os brios dele.
Fiquei louca da vida e comecei a falar:
- Sabe do que mais? Você é um filho da puta, um sargento merda, um lixo que mereceu o que te fizeram, seu monte de bosta, porcaria, besta, cavalo, nojento, assassino!
Ele ficou ainda mais furioso e me disse:
- Vai pra puta que te pariu, garota imbecil!
- Puta é a tua mãe! - gritei, dando uma bolsada na cara dele.
Ele quis vir pra cima de mim, mas o Mercúrio o segurou dizendo:
- Para com isso, pô meu, fala sério, pra que ficar discutindo, gente?
- Foi essa aí que começou - disse ele, me empurrando.
- Esse merda me ofendeu! - falei, dando outra bolsada nele.
- Gente, vamos calar as bocas, acalmar os ânimos e, eu quero saber o que te trouxe aqui Patrícia, já que pelo jeito não foi pra ofender o Cabral que você veio - disse o Mercúrio, segurando eu e o Cabral.
Quando cheguei numa outra sala com ele, mostrei o bilhete e ele me disse: - Caramba, pelo jeito o ameaçador está disposto a impedir de qualquer jeito que você ajude aquele sabugo de milho gigante - me disse o Mercúrio pensativo.
Comecei a rir quando vi o apelido que o Mercúrio colocou no Fernandes e perguntei depois de me recompor:
- Será que não foi o Cabral que escreveu isso?
- Ah tá, eu conheço ele muito bem e sei que ele tem o costume de dizer isso na cara de quem ele não gosta - me disse o Mercúrio, demonstrando que conhecia bem o Cabral.
- Mas quem é que garante que não foi ele? Afinal ele teria todos os motivos pra não querer que o Fernandes ache a Xica e não gostar dele- falei, vendo que o Cabral estava nos espiando da porta.
O Mercúrio me disse:
- Você tá certa por um lado, mas por outro não, pois ele não quer nem conversa com o Fernandes.
Falei que não acreditava e ele disse:
- Você pode ter uma única certeza, o Cabral é outra pessoa, não mais aquele que você um dia viu nos livros.
- Até parece - falei séria.
- Melhor você acreditar, pode ser que um dia ele te ajude- falou o Mercúrio, colocando a mão no meu ombro.
Tive que rir, mas não podia imaginar que o Cabral seria de grande importância e valia nessa história.
Me despedi do Mercúrio e fui embora, quando escutei uma gritaria e quebradeira num dos recintos do lugar.
Era o Cabral tendo um ataque de choro e fúria:
- Que merda, a minha vida é um inferno completo, de que adianta mudar?! As pessoas te odeiam, não olham na sua cara e tudo porquê? Por conta de uma porra duma palavra: PASSADO! Merda!
Quis acudi-lo, mas achei melhor não, pois ele tava muito furioso e podia me atacar, então resolvi passear um pouco pra ver se esfriava a cabeça, pois ela tava fervendo devido aos recentes fatos ocorridos comigo.
Enquanto andava, lembrei que o Fernandes me dera o telefone e endereço dele quando falou comigo no domingo à noite, então resolvi ir lá para ver se ele podia me ajudar a descobrir quem era o autor do bilhete ameaçador.
Peguei um ônibus perto da locadora e dentro dele encontrei minha professora de literatura da faculdade, Malva, que me disse:
- Boa tarde Patty, como está você e por que não veio na aula, esqueceu-se de que tinha prova hoje?
- Não professora, é que estava com um mal estar e estou indo ao médico agora pra conseguir um atestado - respondi mentindo.
- Oras, estou estranhando, pois pelo que sei, o seu médico fica no centro e você está indo em direção ao leste. Você não acha que se enganou na hora de pegar o ônibus? - disse ela, dando mostras que desconfiava de mim, pois ela sabia muitas coisas da maioria dos seus alunos, entre eles eu.
- É que o meu médico hoje não está atendendo ninguém, então vou até o consultório recomendado pelo Dr. Marco quando ele não está - respondi, mentindo outra vez.
- Oh sim, me perdoe Patty, não queria te insultar dizendo que você mentia, apenas estranhei você vir pra esse lado- disse ela, me olhando sorrindo.
- Por que você estranhou? - perguntei, vendo que alguma coisa estava escondida nas palavras dela.
- Será que você não sabia que aqui é um lugar bem violento? É melhor ter cuidado se não quiser ser assaltada - disse ela, rindo, levantando e se despedindo, dizendo que já ia descer.
Retribuí a despedida um bocado desconfiada e vi que minha parada estava próxima, dando sinal pro motorista parar. Ele parou na parada que ficava na frente de um prédio comercial que era nada menos que o imponente e ao mesmo tempo sinistro Banco Bogari.
Andei duas quadras até chegar no que podia se considerar o condomínio mais chique do bairro onde eu estava. Perguntei ao porteiro se o morador do número 1.115 estava e ele respondeu que sim, me indicando o elevador. Peguei-o e apertei o número 11, chegando lá em menos de 3 minutos, já que ninguém pegou o elevador naquele espaço de tempo.
Entrei no andar e comecei a procurar o 1.115, até chegar numa porta de madeira talhada com esse número escrito em dourado. Apertei a campainha, sendo atendida por um homem de cabelos muito negros, olhos castanhos e pálido como um cadáver, me perguntando:
- Boa tarde, o que a senhorita deseja?
- Quero falar com o seu patrão agora, é urgente- respondi, olhando cada parte da sala daquele apartamento tão elegante.
- Irei chamá-lo, aguarde um instante- respondeu ele, com voz rouca e grave.
- Não é necessário Linus, já sei que ela está aqui - disse o Fernandes aparecendo de roupão na sala na mesma hora que o mordomo disse que o chamaria.
Sem me deixar falar, ele perguntou:
- O que você veio fazer aqui a essa hora, será que você se deu conta de que estou dormindo?
- O assunto é urgente, é sobre o fato de eu querer te ajudar - falei, mostrando em minha voz que estava nervosa.
- O que é tão urgente? - perguntou Fernandes, demonstrando não querer conversar muito.
- É isto. - respondi, mostrando o bilhete ameaçador que recebera.
Quando Fernandes viu o bilhete, me olhou e disse:
- Você não tem que se preocupar, não vou deixar que nada te aconteça e faço questão de descobrir quem é que ousa te ameaçar.
- Tá certo, mas será que você tem idéia do que esse ou essa pode fazer comigo? - perguntei apavorada.
- Já te disse que não vou deixar te acontecer nada, confie em mim - disse ele, colocando as mãos nos meus ombros.
- Sinceramente não sei se posso confiar em você - falei séria.
- É assim ou nada. - disse Fernandes, friamente.
Quis pensar que aquilo era só um pesadelo do qual eu logo acordaria, mas não podia, pois agora estava metida nessa situação até o pescoço e vi que não podia mais sair dela, dizendo:
- Está bem, vou aceitar sua proposta, mas com uma condição:
- Que durante essa história você não tente me transformar em sua noiva perdida, se aproveitando da minha semelhança com ela.
Ele perguntou com cara de quem não gostou do que ouviu:
- Por que eu faria isso?
Não respondi e me despedi, dizendo:
- Espero que nós tenhamos sorte e a encontremos.
- Também espero. - disse ele sorrindo. Desci pelo mesmo lugar por onde subi e cheguei até a rua movimentada, tendo em seguida a desagradável sensação de estar sendo seguida.
Dei cada passo com muito cuidado, pois pra mim aquela rua parecia ter naquele momento buracos ou armadilhas nos quais eu poderia cair se não me cuidasse. Fiquei aliviada quando percebi que a parada estava perto, mas esse alívio acabou quando vi alguém me chamando do prédio do banco e olhei, vendo uma moça morena de pele branca, cabelos compridos presos em um coque, olhos negros, vestida com um tailleur azul e que demonstrava ser uma alta funcionária do banco.
Perguntei desconfiada:
- O que a moça deseja?
- Quero falar com você, entre. - disse a mulher, indicando a entrada do Banco Bogari.
- Não, não posso agora, tenho que ir pra casa. - falei nervosa, lembrando a fama que o dono desse banco tinha segundo comentários, de ser um que atraía moças ingênuas pra dentro do lugar e fazer com elas coisas que até o Deus duvidava, mas que até hoje não tinham sido provadas por motivos implícitos.
- Será rápido, acalme-se. - disse ela, saindo pra me levar pra dentro do banco.
- Já disse que não. - falei, pegando o primeiro ônibus que vi.
Não pude deixar de esconder um suspiro de alívio ao saber que tinha pego o ônibus que levava pro meu bairro. Sentei aliviada num dos bancos da frente e grudei a cara no vidro da janela, esperando o ônibus chegar no meu bairro, pra que eu pudesse ficar definitivamente tranqüila, mas levei um super susto ao ver uma mulher toda de preto do meu lado.
A mulher ficou assustada e exclamou:
- Não pode ser você, Xica da Silva, não pode ser!
- Calma, moça, não sou essa que você pensa. - falei assustada com a reação da mulher loira de olhos verdes ao me ver.
- Não é ela tia Efigênia, ela é minha aluna de matemática. - disse uma outra mulher morena de pele branca, olhos castanhos, cabelos compridos presos com uma fita, vestida de azul marinho que eu logo reconheci como sendo Olga, minha professora de matemática da universidade.
- Tia?! - perguntei espantada com o fato de a mulher do meu lado parecer um pouco mais velha que Olga.
Todos que estavam no ônibus nem davam bola pra gente, enquanto a tal Efigênia perguntou pra Olga com um tom bravo na voz:
- E agora? Você vai ter que contar pra essa aí quem eu sou.
- Acalme-se tia, vamos descer do ônibus e conversar num lugar reservado - disse Olga, colocando a mão no ombro dela.
- Pelo jeito você é vampira, não é? Foi noiva de João Fernandes de Oliveira, se me lembro. - disse, lembrando onde tinha visto aquele nome e vendo que ela usava óculos escuros mais luvas e chapéu, sendo que estava um calor enorme naquele dia e que ninguém estando bom das idéias usa esses dois últimos apetrechos quando está quase 35 graus.
- Como você sabe, hein garota? - perguntou a loira, me olhando com olhar inquisidor.
- Pelos seus caninos que ficaram à mostra quando você se espantou ao ver a mim e ao meu crucifixo. - respondi seriamente e acariciando minha cruz.
Ela não disse mais nada e nós três descemos na parada que ficava a quase 5 quadras da minha casa, entrando na lanchonete da Dona Gênova e sentando numa mesa dos fundos pra que ninguém nos ouvisse.
- Então quer dizer que a famosa condessa está aqui e que é tia da minha professora? - perguntei ironicamente.
- Sim, tem algo errado, dona sabichona? - perguntou ela, brava.
Respondi que nenhum quando Olga disse:
- Não vamos exaltar os ânimos, vamos falar com calma, que é o melhor a fazer agora.
- Tá bem, só espero que sua querida titia não me chame de macaca e nem tenha sido ela que me escreveu esse bilhete ameaçador, se não eu atiro essa bolsa na cara dela. - disse, vendo que Efigênia não tinha ido com a minha cara e mostrando o bilhete.
Quando viu o papel, tanto ela como Olga se assustaram e me olharam, sendo que Efigênia perguntou feliz em seguida:
- Quer dizer que o Fernandes está aqui?!
Respondi que sim, dizendo que ele morava na Zona Leste de SP, estava à procura de seu amor perdido e que se vingaria de quem fez mal à ele e Xica.
Por pouco, Olga não desmaiou de susto dizendo:
- Pelo amor de Deus tia, você não vai querer procurar ele depois disso que a Patrícia disse, não é?!
- Calma, eu não sou maluca Olga. - respondeu Efigênia.
Disse que tinha que ir e me despedi das duas, recebendo a despedida de volta. Aquela sensação de estar sendo seguida voltou quando saí da lanchonete, me deixando muito apreensiva. Andava cada metro com muito cuidado, rezando pra logo chegar em casa e terminar a péssima sensação que tinha, mas ao passar por uma rua deserta a uma quadra e meia da minha casa, fui imobilizada por dois caras enormes e perdi os sentidos ao ter um pano com clorofórmio colocado no meu rosto.
Acordei depois de não sei quantas horas, minutos ou segundos, tão em giro tava a minha cabeça num lugar que parecia ser um calabouço secreto ou qualquer outra coisa relacionada com cárcere. Comecei a gritar como louca na tentativa de chamar a atenção de alguém, quando uma voz metálica falou rindo não sei de onde:
- Não adianta você chamar ninguém querida, você está completamente isolada de tudo e de todos!
- Quem é você e o que você quer comigo?! - gritei desesperada.
- É meu patrão senhorita - disse uma mulher que reconheci como sendo a mesma que falara comigo horas antes na frente do banco.
- Meu Deus, o que isso significa?! - gritei ainda pior do que antes e olhando a mulher na minha frente.
- Oras, achas que não sei que vai ajudar Fernandes? Por isso te prendi, não permitirei que o ajude, se preciso, lhe matarei Patrícia- disse a voz metálica com ódio.
- Como você sabe o meu nome?!- perguntei muito assustada.
- Eu sei tudo sobre o que acontece aqui neste reduto de simples mortais, pois eu tenho o poder, a força, o comando!- disse a voz metálica rindo insanamente.
A mulher também riu e ficou plenamente feliz ao ouvir a voz dizer:
- Você fez um ótimo trabalho, querida May, será vultosamente recompensada, com seu salário aumentado 15 vezes.
- Não precisa, o senhor sabe que sou fiel a você em tudo. - disse a tal May, sorrindo plenamente.
- Eu insisto, é uma ordem! - exclamou ele, batendo com a mão em algum lugar.
Tive que rir ao ver a cara de medo que ela fez, mas depois me assustei ao lembrar de outras coisas que diziam sobre o dono do banco: que ninguém sabia quem ele era, nunca aparecia em público e que quando negociava com seus clientes, sempre aparecia por vídeo conferência sem mostrar o rosto e com a mesma voz metálica que eu ouvia agora, chegando a conclusão de que aquele que falava comigo era ninguém menos que o dono do Banco Bogari.
- Então você é..... ?- perguntei, tendo minha frase interrompida quando ele respondeu rindo:
- Sim senhorita, o dono desse império!
- Peraí, como você sabe essa história do Fernandes? Não entendo - falei em dúvida total.
- Oras querida, conheci este excomungado filho da égua quando vivi no Tijuco. - respondeu ele furioso.
- Como.... ? - quis perguntar quando ele exclamou rindo:
- Ainda não percebeste quem sou? Sou um ser da noite mais escura, um vampiro!
Comecei a tremer feito uma vara e a fazer o sinal da cruz, rezando pra que essa história logo terminasse e eu pudesse sair de lá, se possível viva.
- Ora, você espera sair daqui viva? Vai depender apenas de você, se prometer que desistirá dessa idéia maluca de querer ajudar o Fernandes. - disse o vampiro com a voz agora normal.
Não respondi nada, vendo no meu relógio que já eram 2 horas da manhã e que minha bolsa estava colocada sobre uma mesa do lado da cela onde eu estava e me desesperei ainda mais pensando nos meus pais que a essa hora deviam estar mortos de preocupação, pensando em onde eu poderia estar até aquela hora, começando a chorar compulsivamente e despertando o riso cruel daquela maldita mulher chamada May, que pelo jeito era secretária do dono daquele lugar amaldiçoado.
Me deitei no que parecia ser um colchão improvisado no chão na tentativa de dormir, mesmo sabendo que passaria a noite em claro pelo medo de ser assassinada a mando daquele vampiro louco. Virava de um lado pra outro o tempo todo ainda com a cara coberta de lágrimas, pensando no que seria daqui pra frente, pois eu já estava sem esperança de me salvar, quando olhei a tela de uma das paredes se abrindo e me assustei, imaginando que fosse um rato, mas logo me aliviando e ao mesmo tempo me surpreendendo ao ver o mordomo de Fernandes, Linus.
- Vim aqui salvar a princesa prisioneira- disse ele sorrindo e me convidando pra entrar no tubo de ventilação.
- Vamos sair por aqui seu doido, será que não tem um monte de caras vigiando lá fora?!- perguntei atarantada.
- Não há ninguém vigiando à noite, pois há alarmes aqui, só que os tubos não os têm, então sairemos por eles, depois pelo telhado e aí voaremos até o apartamento do patrão. - respondeu ele, me ajudando a entrar no tubo.
Nem perguntei como ele sabia aquelas coisas e tremi pra caramba ao saber que sairíamos voando, pois eu morria de medo de altura, mas tive que me acalmar, pois aquilo era melhor do que ser morta. Andamos cuidadosamente por aqueles tubos até chegar ao telhado e Linus me dizer:
- Patty, peguei sua bolsa utilizando um dos meus truques.
- Aposto que você devia ser mágico de circo quando o Fernandes te pegou. - falei rindo.
Ele riu dizendo que sim e nós saímos voando muito alto pela rua, enquanto eu agradecia um monte o bem que ele me fizera. Comecei a estranhar que ele voava mais longe que o lugar onde Fernandes morava e perguntei:
- Onde estamos indo?
- Você acha que o Fernandes é bobo? Depois que ele soube do que te aconteceu e que esse tal dono do banco sabe dele, foi para um dos seus muitos esconderijos aqui de SP- respondeu ele me olhando espantado.
Logo vi que o Fernandes era mais inteligente do que eu supunha, nem perguntando como ele soubera do meu seqüestro e não disse mais nada, esperando ansiosa que chegássemos logo até o lugar.
Aproximadamente vinte minutos depois chegamos a um prédio no subúrbio da cidade e descemos numa sacada do penúltimo andar. Falei:
- Nossa, que lugar mais mequetrefe esse.
- Oras, não diga uma coisa dessas, pense nos que não tem onde morar! - exclamou Linus, me repreendendo exatamente como fazia o meu pai quando eu dizia algo que não devia.
Percebi que tinha dito uma besteira quando vi um mendigo pedindo esmola num viaduto que ficava perto do prédio onde estávamos e comecei a chorar, imaginando o que Linus tinha me dito. Entramos e aí vi o requinte de decoração que ele tinha, mesmo que aquele local não fosse o melhor de todos e disse:
- Ele tem um bom gosto danado com decoração.
- Sim Patty, você adivinhou um dos meus talentos além do de contratador. - disse Fernandes rindo e vindo me cumprimentar.
- Você sabe quem é o dono desse banco? - perguntei seriamente, sem maiores rodeios.
- Pra ser sincero com você eu não sei quem ele é, nem como me conhece, só sei que ele está disposto a nos atrapalhar. - disse Fernandes me abraçando.
Tremi um pouco ao sentir o corpo gelado dele no meu, mas me aliviei sabendo que estava salva e que logo voltaria pra casa.
- Nem pense em querer ir pra casa a essa hora, essa noite você dorme aqui. - disse ele, que leu meu pensamento.
- Pelo menos posso ligar pros meus pais?- perguntei olhando o telefone.
- Não é preciso Patty, já liguei pro Mauro avisando que você vai ficar aqui. - respondeu ele sorrindo e olhando da janela o mendigo que estava no viaduto.
Fiquei um tanto espantada, mas lembrei que o meu pai conhecia o Fernandes e então perguntei, vendo a expressão dele:
- O que você pretende fazer com o mendigo?
- Me alimentar. - respondeu ele, me mostrando suas presas mortais.
Fiquei assustada com a resposta e mais ainda quando vi Linus trazendo o pobre homem adormecido pra dentro do apartamento e colocando-o na frente de Fernandes, que deu uma mordida no pulso do coitado que gemeu de dor. Fernandes começou a sugar o sangue do homem com sofreguidão, enquanto eu chorava imaginando que aquele pobre coitado morreria como indigente, só que, me surpreendi ao vê-lo soltar o homem e dizer com a “Voz Vampírica”:
- A partir de hoje, você irá para um albergue, mudará esse visual, deixará de beber, arrumará um emprego e viverá com dignidade!
O mendigo se levantou não sei como e saiu pela porta andando como um robô, o que me emocionou muito, me fazendo dizer:
- Foi um gesto lindo o seu.
- Gosto de ajudar quem precisa Patty. - respondeu ele alegre.
- Tinha que vê-lo no Natal, vive ajudando orfanatos. - disse Linus sorrindo.
Fiquei ainda mais comovida, vendo aquele vampiro que eu antes pensava ser um completo monstro ser melhor que muitos humanos que eu conhecia neste mundo muitas vezes tão injusto, porém, eu não aprovava ele querer se vingar de modo tão cruel dos que fizeram mal à ele e Xica da Silva.
Aí Fernandes tomou uma postura séria e perguntou:
- Você chegou a ver o rosto do tal vampiro dono do banco?
- Não, só ouvi a voz dele e vi a secretária dele chamada May. - respondi.
- Acho que conheço esse nome de algum lugar. - disse Linus pensativo em seguida me perguntando:
- Como ela é, e o que faz no banco?
Respondi tudo o que sabia, fazendo Linus ter um sério ataque de cólera e dizer:
- Eu conheço essa desgraçada e aposto que sei quem é o dono desse banco!
- Quem?! - perguntamos eu e Fernandes ao mesmo tempo.
Quando Linus gritou o nome dele furioso, Fernandes ficou com os olhos faiscando de ódio enquanto eu cheguei à conclusão de que ele era o inimigo oculto que eu tanto temia e aí mesmo que vi que eu, Linus e Fernandes estávamos diante de um adversário perigoso e poderoso.

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