Wednesday, March 15, 2006

Procura-se-capítulo 4 : A Primeira Pista

(Por: Renata Cezimbra)

Depois de passar a noite no apartamento suburbano do Fernandes, fui pra casa de carona com Linus e fiquei muito feliz ao rever meus pais, irmãos e amigos.
- Filha, você não tem idéia do quanto nos preocupamos apesar de sabermos onde você estava! - disse minha mãe quase chorando.
Meu pai me abraçou com força, dizendo:
- Filha, não se arrisque assim, pelo amor de Deus!
- Não se preocupe pai, sei o que estou fazendo e que vou conseguir fazer o que pretendo. - falei com coragem.
Eles não disseram mais nada enquanto eu pensava por onde começaria a ajudar Fernandes, já que não tinha nenhuma pista concreta do paradeiro de Xica. Então resolvi começar procurando por São Paulo, já que a cidade era bem grande e tinha uma porção de esconderijos que podiam muito bem esconder uma vampira. Só que eu tinha uma dúvida: se o Fernandes tinha um monte de poderes, por que não os usava pra encontrar Xica? Eu não podia entender aquilo, mas o que eu podia fazer? Mas desde que eu conhecera Fernandes de forma um tanto inusitada, sentia que Xica da Silva estava viva. Como eu não sabia, mas algo me dizia aquilo. Decidi falar com o Mercúrio pra ver se ele me ajudava e fui até a boate, já que ele morava e trabalhava lá. Ao chegar, vi o Cabral de pé fumando um cigarro Derby e nem olhei na cara dele, indo direto procurar o cara com quem queria falar. Entrei na sala do Mercúrio sem bater e lhe dei bom dia, dizendo:
- Preciso da sua ajuda urgente.
- Bom dia pra você também Patty, já sei o que quer e saiba que vou te ajudar mesmo contra a vontade do Cabral - falou Mercúrio sorrindo e colocando as mãos nos meus ombros.
- Aposto que ele não quer, por não ir com a cara do Fernandes. - falei rindo.
Ele riu, me fazendo confirmar a suspeita que tinha, então começamos a ver onde provavelmente ela poderia estar. Primeiro em São Paulo, já que, vocês sabem o quê.
- Essa cidade é enorme Patty, não sei por onde começar e pra variar, adoraria saber como você pode acreditar que Xica está viva. - disse Mercúrio pensativo.
- Não sei como isso é possível comigo, não sei mesmo. - falei em dúvida.
- A coisa mais provável é que você esteja ligada a ela pela semelhança física. - disse o Mercúrio de forma misteriosa.
Fiz cara de quem não entendeu patavinas do que ele tinha dito e aí ele me explicou:
- Pelo que dizem alguns povos em relação à crença nos vampiros, alguns deles estão ligados aos humanos pela semelhança, já que essa semelhança é o reflexo que eles não possuem.
- Você quer dizer alma, coisa que a Xica muitas vezes não tinha. - falei séria.
- Deveria se envergonhar do que disse, será que você sabe quanta gente ela ajudou e quanto ela se arriscou fazendo-o? - perguntou Mercúrio espantado com o que eu dissera.
- Eu sei disso, mas será que você sabe quantas pessoas ela mandou mutilar e matar? Sinceramente, não concordo com isso que ela fazia, apesar de saber que ela tinha razões pra faze-lo. - falei, reforçando minha opinião.
Ele não disse mais nada sobre aquilo e falou:
- O único jeito da gente começar a procurá-la é saber em que tipo de lugares ela gosta de ficar e o único jeito é perguntando pro Fernandes, já que ele conhece ela melhor do que a gente. Que boca santa foi a do Mercúrio aquela hora, quando uma quebradeira e gritaria começou na pista de dança e aí vimos que o Fernandes e o Cabral brigavam que nem galos de rinha, se socando, chutando, dando piruetas de defesa, uma infinidade de outras coisas que resultavam em mesas, cadeiras, vidros, garrafas e balcões quebrados e uma infinidade de desaforos que iam desde apelidos até os palavrões mais horríveis:
- Sargento- merda!
- Sabugo de milho gigante!
- Bosta!
- Filho da égua!
- Filho da puta!
- Cavalo!
- Espancador de mulheres!
- Contratador do cacete!
- Sargento do ca.....!
- Merda amarela!
- Pau no c..!
- Fu......!
- Assassino de crianças!
- Diabo loiro!
- Lixão!
- Escroto!
- Escória!
- Vamos parar com isso! - gritou o Mercúrio, tirando com um feitiço um Fernandes assassino furioso com estaca de cima do Cabral na hora em que ia dar o golpe mortal. Fernandes ficou flutuando no ar, enquanto Mercúrio ajudava Cabral a se recompor, rindo ao vê-lo tentar se livrar do feitiço dele. Também ria daquilo, enquanto Cabral dizia com desdém e abraçando o Mercúrio:
- Não adianta você querer me matar, pois sempre terei um amigo pra me ajudar seu babacão.
- É, mas não pense que terá a mesma sorte da próxima. - falou Fernandes com escárnio. Vi que o Mercúrio olhou pro Cabral com cara de bravo e disse:
- Olha aqui, não quero vocês dois brigando de novo, lembrem-se que isso são coisas do passado e que nunca mais vão acontecer!
- Quero fazer esse diabo loiro pagar pela infelicidade que causou pra minha filha! - gritou Cabral.
- Aquela sua filha era uma bruxa que mereceu tudo o que passou! - replicou Fernandes.
Mercúrio disse algumas palavras e os dois ficaram duros como estátuas, me fazendo rir além da conta, já que eles ficaram com cara de palhaços ao serem paralisados. Alguns minutos depois, ele fez os dois vampiros voltarem ao normal, mas deu um jeito deles não brigarem: colocou uma barreira de energia antivampírica entre os dois pra que eles não se estranhassem de novo.
- Posso te fazer algumas perguntas? - perguntou Mercúrio amigavelmente.
- Sim, se você explicar o porquê. - respondeu Fernandes secamente.
Ele explicou e Fernandes concordou, pedindo pro Mercúrio começar de uma vez com o “ interrogatório”. Mercúrio perguntou sobre todos os hábitos e gostos de Xica que ele soubesse e Fernandes respondeu com bastantes explicações, durante duas horas de um imenso falatório, fazendo Mercúrio chegar à conclusão de que Xica não gostava de lugares como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e outras grandes metrópoles, ela preferia lugares tranqüilos como cidades pequenas ou praias em época de inverno. Aquela conclusão deixava a gente num mato sem cachorro, pois a gente não sabia por onde recomeçar a procurar e seria difícil conseguir achá-la num mundo tão grande quanto esse que nós vivemos.
- Se preciso Patrícia, vou até o inferno para encontrá-la! - exclamou Fernandes confiante.
- Eu sei, ela é a única que dá um sentido à sua vida. - falei, vendo que naquele coração de vampiro tinha um amor que nem o tempo, nem a morte apagava.
Nós estávamos conversando quando os padrinhos de Mila e ela chegaram de surpresa e Elvira disse:
- Nós queremos ajudar vocês,.....
- Só vou pedir a ajuda da Patty, pois não quero nem olhar na sua cara! - gritou Fernandes, se levantando e quase dando um tapa nela.
- Hei, vamos acalmar os ânimos, não vamos fazer baixaria. - disse o Mercúrio dando um jeito de fazer eles pararem com a discussão, que ia se acalorar.
- Se ele quiser bater nela, faremos! - falou Paulo bravo e já se preparando pra dar uma direta na cara do Fernandes.
- Gente, quanto mais ajuda tivermos, mais rápido acharemos a Xica seu bando de mentecaptos! - gritei, vendo a falta de cabeça que eles tinham pra algumas idéias.
Todos me olharam com cara de quem não acreditou no que ouviu e a Elvira falou com desdém:
- Até parece que vou conviver com esse sargento merda!
- Eu, com essa meretriz?! - perguntou Cabral, revidando o insulto da Elvira.
- Meretriz o cacete, seu filho da puta miserável! - gritou Elvira, quase avançando na cara do Cabral.
O Paulo e o Zé Maria tiveram que segurar a Elvira pra que ela não quebrasse uma garrafa de whisky na cabeça do Cabral, tão furiosa ela estava.
- Você também não ajuda seu burro. - falou Mercúrio pro dono da boate com cara de quem não tinha gostado da cena.
- Burro é o teu c..! - gritou Cabral, que não gostou nem um pouco do que o Mercúrio disse.
- Mas que boca suja essa sua, Cabral! - falou Zé Maria horrorizado.
- E o que você tem a ver com isso, Zé Mulher?! - perguntou Cabral com escárnio.
- Se eu sou Zé Mulher, você é Sargento M....! - gritou Zé quase socando a cara do Cabral.
- Gente, vamos parar com isso, não é hora de lavar roupa suja de séculos atrás. - falou a Mila, se metendo no meio da baixaria vermelha feito pimenta, já que ela tinha pavor de palavrão.
- Pessoal, a Mila tá certa, vamos fazer o que realmente interessa. - falei, vendo que a lavação de roupa suja já tava passando dos limites.
Então eles pararam de brigar e eu e o Mercúrio contamos aos outros a conclusão que nós tínhamos chegado depois de falar com Fernandes, fazendo Zé dizer:
- Nada que eu já não soubesse e além disso, por onde vamos começar a procurar, já que eu e aposto que nenhum de nós aqui têm uma idéia de onde Xica esteja.
- Acho que ninguém some assim sem deixar vestígios, uma pista. - falou Cabral.
- Por acaso vocês já ouviram falar do “ Caso Carlinhos”? Ele sumiu a mais de 20 anos e até hoje ninguém sabe onde ele tá. - falei, dando um exemplo de seqüestro com desaparecimento que nunca foi esclarecido e a pessoa, nunca encontrada.
- Isso foi um seqüestro Patty, o caso da Xica é diferente. - disse Paulo seriamente.
- Mas tem uma coisa, se vocês vampiros têm tantos poderes, por que não os usam pra tentar encontrá-la? Quem sabe dê certo. - perguntei pensativa.
- Patty, nós estamos procurando Xica a muitos anos, não é de agora a nossa procura. - disse Paulo triste.
Eu sinceramente fiquei um tanto espantada, pois eu sabia que os vampiros podiam detectar qualquer lugar, mas nesse caso, as coisas não eram assim, o lugar onde Xica estava era um daqueles onde nem o GPS localizava.
- Padrinhos, vocês não acham que ela pode estar no Tijuco? - perguntou Mila, dando uma sugestão.
- É pouco provável, nós já teríamos encontrado ela. - respondeu Elvira desanimada.
- Se ela gostava de ser “rainha”, ela voltaria pro Tijuco depois de ter sobrevivido ao incêndio e ficaria por lá. - falei, concordando com a hipótese da Mila.
- Essa hipótese é impossível, mas vocês me deram uma ótima idéia em compensação. - falou Fernandes esfregando uma mão na outra e com um olhar assassino.
Nós todos ficamos aparvalhados ao vê-lo dar uma sinistra risada estilo Drácula exibindo suas presas mortais e exclamar:
- Está aberta a temporada de caça aos vampiros!
- Você tá doido Fernandes, tá querendo ser morto?! - perguntou Paulo, percebendo a idéia que ele tinha tido.
Podia não ser vampira, mas tinha percebido o plano do Fernandes e diga-se de passagem, fiquei pra lá de assustada, pois o vampiro loiro ia dar uma de Blade, o famoso personagem da Marvel Comics. Depois de descobrirmos o plano suicida do Fernandes, fomos cada um para casa pensar em como seria os próximos dias, enquanto eu queria me jogar na cama e só pensar nas minhas provas finais que já estavam correndo e que tinha que recuperar, já que eu tinha perdido duas delas, além de imaginar o que o destino me reservava para os próximos dias.
No outro dia bem cedo, já esperava o ônibus pra universidade, quando me deparei com a professora Malva na parada e falei:
- Bom dia professora, já estou melhor do meu mal estar de segunda e pretendo recuperar as provas que perdi, se a senhora e os outros professores deixarem.
- Oh sim Patty, seu pai telefonou dizendo que você ainda não estava boa ontem e por isso não veio de novo na aula. - falou ela sorrindo delicadamente.
- Professora, que eu saiba você mora do outro lado da cidade, por que está aqui? - perguntei, sendo que ela quase nunca vinha pro meu bairro.
- Vim visitar uma velha amiga que mora nestes lados. - respondeu ela sorrindo de novo.
Pensava em quem poderia ser, já que eu sabia que ela era filha de um homem muito rico e as amigas dela eram mulheres da alta sociedade e aqui era um bairro de classe média onde os ricos não apareciam muito. Não falei mais nada e pegamos juntas o ônibus que veio logo em seguida, conversando sobre os assuntos que corriam a boca solta pela cidade, observando as obras que eram feitas em algumas partes e rindo de algumas piadas contadas por alguns passageiros até chegarmos ao campus da USP.
Quando chegamos, veio um bando de gente da minha turma me cumprimentar, dizendo que sentiam minha falta e um deles dizendo:
- E aí professora Violante, como tá?! Malva ficou um tanto vermelha e disse rindo:
- Estou bem querido e seus colegas, estão preparados para mais um dia de provas?
- Sim professora! - exclamou todo mundo em coro.
Ri lembrando que a professora era chamada de Violante por conta dela ser fisicamente parecida com a vilã da novela Xica da Silva a não ser pelo cabelo, que ela usava chanel. Enquanto todos entrávamos no prédio do campus, falei:
- Malva, tem uma pergunta que há muito tempo quero fazer pra você, posso?
- Patty, comigo não há essas coisas, faça. - respondeu ela.
- Por que você sendo tão rica, trabalha como professora de faculdade? - perguntei, sabendo que ela podia muito bem se sustentar com o dinheiro do pai e da mãe.
- Eu gosto Patty, é algo que eu tenho prazer de fazer, ensinar as pessoas a maravilha que é a literatura. - respondeu ela exaltada.
Sorri e fui pra sala esperar as provas começarem, pois hoje tinha umas coisas de Arquitetura e de tarde, história das Américas, já que eu fazia a cadeira de Arquitetura de manhã e de tarde, a de História. As provas daquele dia e as que eu tinha que recuperar correram bem, já que eu tinha estudado bastante, mas porém eu não parava de pensar no que tinha ocorrido no dia anterior e saí pra almoçar na tentativa de esquecer o que ocorrera até agora. Fui indo, quando uma moto passou a todo o vapor, quase atirando um jato de água suja no meu conjunto de saia e blusa azul marinho, me fazendo gritar:
- Puta merda meu, você não sabe cuidar quem tá na calçada, não?! Percebi que o cara nem me olhou e pensei:
- Que pariu, cacete! Cheguei no restaurante mais próximo e me sentei numa mesa de frente pra janela, pegando o menu e escolhendo o que ia comer, quando alguém se sentou do meu lado dizendo seriamente com sotaque de Portugal:
- Mas que surpresa te achar aqui, Xica da Silva.
Levei um tremendo susto, pois estava distraída e quando olhei pro lado, vi uma mulher de óculos escuros e luvas finas que me olhava com desprezo: morena, pele branca, cabelo comprido amarrado com uma fita, com 1,65 m de altura, olhos muito castanhos, rosto de boneca e que usava uma roupa que deixava os caras sentados nas mesas da volta babando, pois ela tava com uma blusa cujo decote deixava os seios dela quase de fora, uma saia tão curta que deixava a calcinha dela quase à mostra e umas botas cujos canos iam até o meio das coxas.
- Pra sua informação querida, o meu nome é Patrícia e sou uma universitária de 20 anos que está querendo almoçar! - exclamei louca da vida.
- Que engraçado, não sabia que a macaca tinha mudado de nome, aprendido a falar corretamente e que está fazendo faculdade. - disse a lusitana com ironia.
- Olha aqui sua piranha, não sou nenhuma macaca. - gritei dando com um dos meus livros na cara dela e chamando a atenção de todos os clientes. Ela veio pra cima de mim no tapa e eu claro, fui me defender e começamos um tremendo barraco no restaurante, puxando cabelos, chutando uma a outra, falando todos os desaforos possíveis e sendo separadas por dois garçons que tiveram que nos segurar pra que não acabássemos com o lugar. Quando paramos de brigar, perguntei:
- Me diz uma coisa, por que todo mundo que eu encontro cisma que sou Xica da Silva?! Isso é uma maldição!
- Será que nunca se olhou no espelho, Patrícia? - perguntou ela rindo.
- Já fiz isso muitas vezes e quero que você me peça desculpas pelo que fez comigo! - exclamei ainda muito brava.
- Só se você me pedir também por ter me chamado de piranha! - exclamou a portuguesa, que não gostara nem um pouco de ser chamada daquele nome, pois esse queria dizer vagabunda, vadia, galinha, prostituta. Pedi as desculpas e ela fez o mesmo comigo, quando um bando de caras que estavam no restaurante começaram a gritar repetidas vezes:
- Morgana, gostosa! Olhei bem pra ela e lembrei que ela era uma stripper famosa e que estava se apresentando num dos hotéis mais chiques da cidade, o Sheraton, cujo cartaz que eu vira um dia dizia: ”A Magnífica Morgana, um show de garota, o furacão de sensualidade que vai sacudir São Paulo!”
- Se você me confundiu com Xica é porque você é uma vampira, eu aposto, se não for, então não sei quem você é. - falei respirando o ar que entrava pela janela.
- Como que você sabe disso? - perguntou ela em voz baixa, me fazendo perceber que estava certa.
- Por que todos que tiveram a mesma reação que você ao me ver são assim. - respondi com o mesmo tom de voz dela, enquanto tinha um monte de caras querendo passar a mão nela na nossa volta.
Saímos o mais rápido possível dali pra que não começasse uma confusão e fomos conversar num lugar mais tranqüilo, enquanto não entrava na minha aula da tarde na universidade.
- Aposto que você deve ser uma das portuguesas da família Pereira, a mãe Guiomar. - falei, lembrando do que vira nos fichários do meu pai sobre as pessoas que participaram direta ou indiretamente da história de Xica da Silva.
- Acertou em cheio, senhorita! - respondeu ela rindo.
- Nossa, pra quem era velha e feia, até que você melhorou mil %- falei rindo.
- Também não precisa exagerar! - falou ela com cara de quem não gostou do que ouviu.
- Tá, me desculpa, só fui sincera. - falei um pouco séria.
- Um pouco demais, se é que você me entende. - rebateu ela.
Entendi o que ela dissera e me despedi, dizendo que tinha que ir pra universidade. Ao chegar no campus, fiz as provas que tinham sido marcadas, mas não parava de pensar no que tinha acontecido, o que me deixava quase maluca, pois aquilo fazia uma grande pressão na minha mente. Depois de sair do campus, fiquei zanzando pelo bairro na tentativa de esfriar a mente e quando me dei conta, já tinha anoitecido. Enquanto andava até o ponto de ônibus, minha mente começou a bater um sino que dizia:
- Fale com Guiomar, quem sabe ela te dê alguma informação que ajude você a procurar Xica.
Fiquei meio assim, pois não sabia porque aquilo tinha vindo na minha cabeça naquele momento, bem na hora que estava indo pra casa. Não queria seguir meu pensamento, mas algo me dizia que eu tinha ir até o hotel onde ela estava, pois o show começaria às 21:30, era estranho, mas ela podia saber de algo, afinal, o destino às vezes faz a gente reencontrar pessoas que não gostaríamos de ver de novo.
Peguei o ônibus que levava pra lá e me sentei no banco mais próximo da porta dos fundos, pensando se isso não seria em vão durante 15 minutos até o ônibus chegar no ponto que ficava diante do hotel Sheraton. Desci e entrei no hotel rapidamente, pois começou a chover bem na hora que tinha descido do coletivo e me deparei com o cartaz que anunciava o show de Morgana, que deixava muitas mulheres casadas com inveja e raiva, pois ela estava seminua com uma cobra enrolada no pescoço, só que tinha uma coisa: como ela podia estar naquela foto, quando vampiros não aparecem nelas? Ficava pensando que estranho aquilo era, mas parei ao entrar no lugar onde acontecia o show, que tava lotado de homens e de mulheres, que eu aposto que esperavam um stripper, entre garçons, garçonetes e clientes. O local tava tão cheio que eu quase não podia passar ali, sendo que eu precisava falar muito com ela antes que começasse o show, pois eu tinha chegado 30 minutos antes. Quando eu consegui passar pra ir até os camarins, alguém pegou o meu braço e disse rindo:
- Que você tá fazendo aqui, Patty?! Aqui não é lugar de moças como você ou você deixou de ser santinha?!
Percebi que aquele era um dos meus professores de Arquitetura, Otávio, que com certeza estava com a cara cheia de bebida, pois quando ele ficava de folga, ele tomava todas no bar, tanto que ele era conhecido como Sr. Scotty Canabrava, também pelo fato de ser muito parecido com James Doohan, o intérprete deste personagem em Jornada nas Estrelas. - a série clássica. Comecei a rir e ele me perguntou, exalando aquele horrível bafo de álcool:
- Quer um gole Patty?! Isso aqui tá ótimo!
- Não professor, tenho que falar com Morgana, é que eu sou amiga dela. - respondi já saindo.
- Ah sim, deixou de ser santinha então! - disse ele alegre.
Nem dei bola, pois sabia que ele tava bêbado, mas detestava ser chamada de santinha, pois todo mundo que eu conhecia me chamava assim na época em que estudava no segundo grau pelo fato de eu ser muito discreta e não ter namorado, como minhas colegas de aula. Entrei na área dos camarins, faltando 25 minutos pra começar o show e pedi pra falar com Morgana, que estava se arrumando pra apresentação. Ao entrar no camarim onde ela estava, ela logo viu que eu estava ansiosa e me perguntou:
- Boa noite pra você e, posso perguntar o que está acontecendo?
- Preciso que você me responda uma coisa: por acaso você e Xica da Silva se reencontraram depois que ambas viraram vampiras? - perguntei séria.
Percebi que ela não gostou da pergunta e me perguntou:
- Por que você quer saber, tem alguma coisa acontecendo?
- Sim. - respondi explicando rapidamente todos os fatos que aconteceram desde o encontro na locadora até onde tinha chegado, deixando ela espantada e dizendo:
- Mas o destino é um grande pregador de peças!
- Isso é verdade mesmo e então, não vai responder? - falei novamente séria.
- Encontrei-a uma vez em 1920 em Lepzig, Alemanha, só que quando falei com ela, me disse que não sabia quem eu era e que não conhecia João Fernandes de Oliveira. - respondeu ela rindo.
- Espera, eu não entendi, como que ela pode ser Xica da Silva se você ouviu essas coisas dela? - perguntei com cara de espanto.
- Vampiros detectam uns aos outros ou será que você não sabe disso? - respondeu ela.
- Então você acha que ela pode estar sem memória? - perguntei pensativa.
Ela não me respondeu nada enquanto eu ficava com uma grande dúvida: será que era possível uma vampira ter amnésia? Não, aquilo era impossível, porém, do jeito que a coisa tava andando até ali, acreditava em qualquer coisa, por mais absurda que ela fosse e nesse caso, era inacreditável.
Depois de me despedir dela, saí andando pelo salão pra sair do hotel, só que nessa hora, me deparei com um grupo de colegas meus, que me convidaram pra ficar e a Mia, uma das minhas amigas da universidade, me disse:
- Fica Patty, você não sabe o que vai perder se for embora! Lembrei que um stripper conhecido como “Namor- O Homem do Fundo do Mar, se apresentava no mesmo lugar que A Magnífica Morgana e que segundo comentários, era um belíssimo homem, com um corpo que deixava qualquer mulher louca. Só que tinha uma coisa, estava sem saber o que pensar em relação o que Guiomar me contara sobre Xica, eu simplesmente estava pasma e não sabia como contar pro Fernandes aquilo. Aproveitei a distração dos meus amigos quando eles viram que o show começou, pra ir embora dali e logo chegar em casa e pensar como daria aquela inesperada notícia pro Fernandes, afinal, eu não sabia se aquilo era verdade, pois um vampiro com amnésia era algo impossível ou não de ver.

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