Friday, March 17, 2006

Procura-se-capítulo 6 : Onde menos se espera,está o inesperado.

(Por : Renata Cezimbra)
__Desde aquele sábado horrível no hotel Sheraton, comecei a ter fortes dores de cabeça um tanto freqüentes e elas, de acordo com o clima de cada dia, passavam ou pioravam, tanto que perdia aulas na universidade, mas tinha a sorte de recuperá-las e elas estarem acabando, já que estávamos em janeiro de 2001. A partir daqui, os fatos passam a ser datados do ano citado neste período de texto.
__Os dias passavam sem que nada de importante acontecesse, mesmo que estivesse apavorada com a possibilidade de que Fernandes pudesse ter mudado de opinião sobre mim, o que não seria nada bom e além disso, o inimigo oculto que eu temia não se manifestava desde o fim do terceiro capítulo dessa história, o que me fazia pensar que ele tramava algo de muito ruim, pois depois que eu fora seqüestrada e correra risco de vida, esperava qualquer coisa dele.
__Então resolvi passear um pouco pra esfriar a cabeça e aí passei no parque do Ibirapuera, como era meu costume quando era mais nova e ficava muito esquentada.
__Andava sem rumo pelo parque no meio da tarde quando levei um susto ao ouvir uma voz:
- Ei Patty, o que há com você, por que está com essa cara?
__Comecei a chorar nos braços daquele que eu reconheci como sendo o único com quem eu podia desabafar naquele momento, Mercúrio, que me perguntou:
- Conta pra mim o que tá havendo querida, não tenha medo de falar.
- Você sabe o que aconteceu comigo nos últimos dias! - exclamei completamente triste.
__Em seguida contei à ele tudo o que tinha me acontecido, o que pensava, sentia, queria. Ele me olhou de forma espantada e falou com cara de quem queria fazer um alerta:
- Que eu saiba quem possui de alguma forma lembranças de uma pessoa morta é a reencarnação dela, então você está em perigo de alguma forma a não ser que.......
- O que, cara?! Diz de uma vez, se não entro em parafuso! - exclamei desesperada.
- Que as lembranças de Xica podem estar na sua mente devido ao fato dela estar sem memória, pois quando um vampiro perde suas lembranças, essas vagam durante anos até encontrar algum sósia onde elas possam se alojar e nesse caso, você foi escolhida, isso se ela estiver viva como você pensa. - disse ele calmamente.
- Nunca vi isso em nenhum livro, filme ou seriado de vampiros e além disso, sei que ela está viva, como não sei, mas sei que ela está. - falei sem saber o que pensar.
- Será que você não sabe que os filmes, livros, seriados ou qualquer outra coisa que os mostre não são fiéis à lenda das criaturas da noite? Tem muita coisa deles que ninguém mostra nos filmes, que muita gente sequer imagina que seja verdade. - disse ele rindo.
__Tive que rir daquilo, pois era realmente engraçado, mas depois parei, pois aquilo era um bocado sério ao mesmo tempo, porque poderia passar por situações bem embaraçosas devido a esse detalhe.
__Nós saímos juntos do parque em direção a outra calçada, onde estava a moto dele e enquanto conversávamos, percebi que um carro preto nos seguia e não gostei nem um pouco daquilo.
__De repente, como no filme "Missão Impossível", a janela do carro preto abriu e uma chuva de tiros começou, fazendo nós dois nos jogarmos no chão para não sermos atingidos, algumas pessoas próximas dali correrem para se esconder e outras gritarem alertando os que passavam para se abrigarem num lugar seguro.
__Como num ímpeto, os tiros pararam e o carro saiu dali em disparada, como que fugindo. Nós ainda estávamos apavorados com aquele inesperado fato, quando perguntei mais apavorada do que de costume:
- Que foi aquilo, cara?!
- Não posso imaginar, só sei que foi horrível! - exclamou ele ainda mais apavorado.
__Saímos dali o mais rápido possível direto pra "Casa de Portugal". Quando chegamos, Cabral nos perguntou, vendo nossas expressões:
- O que houve com vocês, parece que viram fantasmas.
__Mercúrio contou tudo quase sem fôlego pra falar, o que deixou ele apavorado e perguntando, com aquele senso de amizade:
- Você tá bem, não se feriu?
- Não importa eu, importa é a Patty, que era o alvo dessa história. - disse ele me olhando.
- Por que ela era o alvo, que eu saiba não há nada de especial com ela ou há? - perguntou ele com ironia.
- Deixa disso Cabral, a coisa é séria! - exclamou ele bravo.
__Em seguida ele contou tudo que acontecera comigo a dias atrás e o que pensava ser as possíveis causas disso, o que o deixou com cara de desconfiado e dizendo:
- Essa é a coisa mais surpreendente que eu já ouvi na minha vida!
- Nem diz, isso é muito pior. - disse Mercúrio nervoso.
- Pior do que isso, o que pode ser? - perguntou Cabral ainda mais surpreso.
- Não é só ela o alvo, eu, você, o Fernandes e todos que estiverem à procura de Xica. - disse Mercúrio sério.
- Esse merda e ela que se fodam sozinhos, eu não vou nessa com eles! - disse ele querendo distância de tudo isso.
- Olha aqui, eu aposto que você quer achá-la pra fazer o que não pôde com ela, sargento merda! - exclamei furiosa.
- Não vamos começar a brigar agora, por favor. - disse ele, percebendo que estávamos a ponto de trocar insultos piores, já que ele também queria dizer alguns na minha cara.
- Só vai depender dela parar de me dizer desaforos. - disse ele me olhando seriamente.
__Ficamos trocando olhares sérios durante minutos até que o Mercúrio disse:
- Vamos parar com isso pela segunda vez, por favor.
__Paramos e ficamos pensando no que fazer até que perguntei:
- Você quer acertar alguma conta com Xica?
- A resposta é simples, quero pedir perdão pelo mal que fiz à ela quando era minha escrava. - respondeu ele sorrindo.
- Você pedindo perdão?! - perguntei rindo e em seguida dizendo:
- Por acaso você se lembra da vez em que você me confundiu com Xica e quase me matou por causa disso?.
- Tem algo errado isso ou você não acredita em mim? - perguntou ele sério, que depois me disse:
- Já te falei um dia que naquele sábado estava de mau humor e você não sabe nem a missa metade do que um vampiro mau humorado.
- Acreditar em você pra mim é impossível, eu não consigo ver você como outro alguém a não ser o sargento mor cruel que vejo nos livros secretos do meu pai. - falei séria.
- Olha, se você não quer acreditar em mim, vou entender. Mas saiba de uma coisa, o tempo vai te ensinar que sou outro alguém e além disso, se você estiver em perigo, vou te ajudar. - disse ele suspirando.
__Juro que não pude acreditar no que ouvi, eu não ia com a cara dele e mesmo dizendo todo o tipo de desaforo na cara dele, ele suportava com compostura, algo que na época da história de Xica da Silva ele não admitia e retribuía com violência quando ouvia.
__Depois me despedi e fui embora pra casa pensando no que Cabral tinha me dito, ainda sem acreditar naquilo e perguntando pra mim mesma:
- Como isso pode ser possível e por que?
__Cheguei em casa e percebi que ninguém estava, vendo um bilhete que dizia que a mãe e o pai tinham ido no mercado, o Alberto ido fazer hora extra no trabalho, a Mariana ido na universidade fazer um trabalho e a Lia e o Maximilien no colégio no horário da tarde.
Fiquei um tanto aliviada apesar de detestar ficar sozinha, pois precisava ficar só pra pensar.
__De repente, comecei a sentir que algo não estava bem, o silêncio demasiado estava ficando mórbido, estranho, desagradável, mas pensei que era apenas o fato de estar sozinha e fui até a cozinha tomar café e quando entrei, achei estranho que a porta dos fundos estivesse aberta, já que os meus pais e irmãos não costumavam deixar nenhuma porta sem trancar quando saíam e eu, apesar de estar com as chaves da casa, não tinha aberto nada a não ser a porta da frente, o que me deixou muito assustada, pois tinha percebido que algo estava realmente errado e aí peguei uma faca no faqueiro para me defender caso tivesse um ladrão dentro de casa.
__Resolvi me trancar no quarto pra ficar mais protegida, porém quando tranquei a porta do quarto e me virei, vi o Pereira me dar um bu irônico na cara.
- Surpresa ao me ver, Patricinha pobre? - disse ele rindo.
- Vai embora daqui, não quero falar com você! - exclamei louca da vida e apontando a faca pra ele.
- Não saio daqui sem conversarmos! - exclamou ele bravo, me desarmando, jogando a faca longe, me agarrando à força pelos braços e me jogando no puf da esquerda.
- Nunca mais faz isso comigo seu filho da puta! - exclamei quase esbofeteando a cara dele.
- Então me deixe falar com você pelo menos. - disse tentando me acalmar, apesar de não ter gostado nada do insulto.
- Tá bom, mas quero que você seja rápido, pois estou ainda muito brava por conta daquela história no hotel naquele sábado, em que você quis me matar e acabar com a Estrela! - gritei.
- Então tá, o que vim falar é uma pergunta:
- Como foi que você me reconheceu? Isso sendo que você não é Xica como me disse Guiomar depois que despertei do coma que fiquei devido aquela batida horrível na cabeça causada por aquele sabugo de milho gigante quando este tentou me matar com aquela estaca. - disse ele me olhando de forma espantada.
- Como não sei, só sei que aconteceu e isso foi ruim. - falei querendo que ele logo fosse embora.
- Se você responder o que aconteceu, acho que vou começar a entender o escândalo que você aprontou no hotel aquele dia. - disse ele com espanto.
- Aconteceu que quando você estava fazendo o strip, comecei a sentir uma dor de cabeça horrível, como se fossem prensas pressionando minhas têmporas e de repente desmaiei no teatro e quando despertei depois de 3 minutos, umas lembranças estranhas do Tijuco, lugar que nem conheço, vieram na minha mente e sua família foi a primeira que apareceu, sendo que a Xica quase não convivia com vocês. - falei sem conseguir ordenar meus pensamentos naquele minuto.
__Não pude deixar de ter medo quando ele me olhou de forma brava, mas depois ele acalmou aqueles belos olhos negros e me disse:
- Podíamos não conviver muito com aquela macaca em forma de fidalga, mas ela sabia que nós a detestávamos.
- Me diz uma coisa, por que vocês brancos do Tijuco daquela época a detestavam, sendo que ela era tão gente quanto vocês? - perguntei com espanto.
- Por que ela vivia nos humilhando, fazia questão de pisar na gente como se fossemos lixo! - exclamou ele furioso.
- Tudo bem, mas vocês davam motivos pra ela fazer isso, então, se vocês não a tratassem mal, quem sabe as coisas tivessem sido diferentes. - falei com propriedade.
- Posso te dar razão, mas se você a conhecesse como nós conhecemos, teria a mesma reação que a nossa. - disse ele sorrindo e tentando cortar meu argumento.
- Acho que não teria se convivesse com vocês. - falei, mostrando que ainda mantinha minha opinião sobre aquilo.
- Olha, não vem com suas indiretas não! - exclamou ele furioso de novo.
- Isso é uma bem direta! - revidei.
__Ele bufou pra caramba, enquanto ria da cara dele, até que ele me disse:
- Sabe de uma coisa? Até compreendo que você me deteste, afinal, fiz muito mal às pessoas da sua raça e seu instinto de proteção e defesa fala mais alto.
- Você ainda é um racista como eram os seus "colegas" na época do Tijuco? - perguntei.
- Não mais, descobri do pior modo que não vale a pena discriminar ninguém. - respondeu ele duramente.
- Aposto que sei como, foi preso com sua família em 1750 e poucos por ser um cristão novo ou judeu, não foi? - perguntei observando-o.
- Só eu e Guiomar fomos presos de fato, pois minha filha mais velha morreu de complicações causadas por um aborto provocado por uma queda de escada e a mais nova conseguiu fugir com meu genro e meu neto. - disse ele com pranto na voz.
- Posso entender como deve ter sido, aposto que foi na prisão que você descobriu o vampirismo e foi com ele que você voltou à sua juventude perdida. - falei um tanto séria.
- Sim Patty, foi o meu bilhete premiado! - exclamou ele com as presas à mostra.
- Pereira, você reviu a Xica quando você e ela já eram vampiros? - perguntei com medo da reação dele, já que ele não gostava de Francisca da Silva, dita Xica, por motivos que eu já sabia e certamente vocês que lêem já devem saber.
- Não sei por que essa cara de medo, respondo essa pergunta sem ficar zangado, afinal, nunca tive oportunidade de pedir perdão pelas vezes que ofendi Xica, então minha resposta é sim, a encontrei uma vez pouco depois de 1880 em Versalhes, só que ela me pareceu não lembrar de nada do que aconteceu entre ela, Fernandes, Violante e os poderosos do Tijuco na época que ela viveu lá, tanto que ela nem lembrava de mim, dizendo que não me conhecia e nem as pessoas que eu citei quando falei com ela. - respondeu ele com dúvida, parecendo que até hoje não entendera o episódio que testemunhara a mais de 100 anos.
Percebi que a resposta dele, apesar de ser mais comprida, era exatamente o que Guiomar tinha me contado no hotel naquele dia, só que o tempo e o lugar eram diferentes.
- O que há com você Patty? - perguntou Teodoro, vendo que eu estava com cara de espanto.
- Foi exatamente o que Guiomar me contou, só que no caso dela foi em Lepzig, Alemanha, em 1920. - respondi fazendo uma comparação.
- Caramba, nunca imaginei que amnésia fosse possível com um vampiro! - exclamou Pereira.
- Mas é, pelo que o Mercúrio me disse. - falei.
- Se isso é verdade, é bem raro isso acontecer com um vampiro, a não ser que ele leve uma pancada extremamente forte ou seja vítima de um incêndio de proporções catastróficas. - falou ele de modo espantado.
- O que você sabe sobre o incêndio de 1875 que ocorreu em Bordéus e separou Xica e João Fernandes pela segunda vez? - perguntei vendo a expressão que estava estampada no rosto dele, que era a de quem sabia mais do que aparentava, já que vampiros se reencontram com facilidade.
- Eu sei bastante sobre isso, que o incêndio foi dos piores possível, que não sobrou quase nada da casa, além de que o fogo foi causado por uma turba de gente enfurecida.- respondeu ele.
- Isso em parte Fernandes já tinha me contado, só que não imaginava que tinha sido tão catastrófico assim. - falei.
- Se você tivesse visto e tentado ajudar como eu fiz, nossa, você teria corrido o mais terrível risco da sua vida! - disse ele, que me contou que tentara evitar que o incêndio se tornasse uma tragédia maior, mas que não conseguiu por que mesmo com seus poderes não pôde conter o fogo que se alastrou rapidamente pela casa.
__Depois ele se despediu dizendo que tinha que se preparar para o show de strip da noite no hotel e eu retribuí a despedida, dizendo que passaria no hotel um dia destes para vê-lo.
__Depois de umas duas horas, todos que moravam comigo já estavam em casa e eu ainda no meu quarto imaginando até onde a história que estava passando ia chegar.
__O outro dia chegou como qualquer dia para os outros, só que pra mim ele chegou como mais um de incerteza por conta de tudo que eu passava e descobria.
Depois de tomar o café da manhã, escovar os dentes e me arrumar, saí pra universidade pra ver as notas que iam definir se tinha passado de semestre, já que as aulas oficialmente tinham acabado a 3 dias.
__Quando cheguei lá depois de andar quase meia hora de ônibus, vi um bando de gente esperando pra entrar e fiquei lá aguardando.
__Enquanto esperava, resolvi passar na biblioteca pra ler um pouco. Quando entrei, ela estava completamente vazia, já que ninguém ia lá no começo da manhã a não ser a bibliotecária, que sempre se atrasava 35 minutos, mas que hoje, pelo que soubera pelo porteiro, não ia vir por motivos de saúde.
__Estranhei o fato dela estar aberta sem ninguém estar atendendo, mas, quando vi entrar pela porta um homem de cara coberta pela gola grande de um casaco, percebi que ele ia substituí-la na função de bibliotecário temporário.
__Achei estranho ele estar com aquele casaco enorme, sendo que estava um calor de 30 graus, mas achei que ele podia estar gripado ou algo do gênero, então não liguei.
__Depois tudo correu como o dia previa na universidade e após terminar tudo, decidi ir até a reitoria pra trancar a matricula por causa da história de procurar uma vampira desmemoriada.
__Subi as escadas e fui até a reitoria pra fazer o que falei no parágrafo acima. Entrei na sala do reitor e me surpreendi ao ver meus melhores amigos lá, perguntando:
- O que vocês fazem aqui?
- Vamos trancar a matrícula pra te ajudar Patty, não vamos te deixar sozinha. - disse a Mia em nome do Grupo dos 9, como a nossa turma era chamada desde os tempos da primeira série, quando nos conhecemos.
- Vocês são loucos, isso é muito arriscado! - exclamei, vendo a loucura que eles queriam cometer.
- Patty, você esqueceu da promessa que fizemos uns aos outros, cortando nossos dedos e juntando nosso sangue, nós prometemos uns aos outros que protegeríamos e zelaríamos pela vida, integridade física e moral uns dos outros sem se importar com os riscos que poderíamos correr ou não se lembra do lema dos três mosqueteiros que dissemos juntando nossas mãos: "Um por todos e todos por um" ?- perguntou Estrela com sua forma decidida de ser e que tanto nos marcava.
- Um por todos e todos por um! - exclamei emocionada com o risco que eles queriam correr por mim, mesmo que isso pudesse arriscar a vida de todos nós: Estrela, Mia, Michele, Vick, Roberta, Ângelo, Lino, Miguel e eu, Patrícia, que me sentia um tanto culpada por eles quererem me ajudar, já que eu tinha aceitado a proposta do Fernandes e contado pros meus amigos a história que o vampiro loiro confirmou sem se importar, o que fez com que eles quisessem correr todo esse perigo, o que me deixava muito mal.
__Depois de meia hora esperando, entramos pra falar com o reitor e dissemos que íamos trancar a matrícula por um tempo, pois estávamos com um problema que ia demorar um bom tempo pra ser resolvido, o que deixou ele surpreso e perguntando:
- Nossa, mas o que será tão sério pra vocês trancarem a matricula assim? - perguntou ele, coçando a cabeleira grisalha.
- Não podemos dizer o que é, apenas que temos que ajudar um amigo que precisa muito da gente pra reencontrar sua amada perdida. - respondeu Michele de modo romântico.
- Que nobre atitude a de vocês, mas existem sites da internet e programas de tv que podem ajudá-lo a reencontrar a pessoa amada. - disse ele sorrindo.
- Acontece que o caso dele é especial e nenhuma dessas coisas dará certo. - disse a Mia.
- Como assim especial? Não estou entendendo. - disse o reitor desconfiado.
- Espere senhor reitor, já vamos explicar. - falei, reunindo todos eles comigo fora da sala.
__Quando eles perguntaram o que eu queria falar, respondi:
- Gente, não podemos contar nada sobre o Fernandes pra ele, ele diria que somos loucos ou que estamos chapados, nunca acreditaria na gente!
- Isso se ele não souber de alguma coisa que nós não sabemos, pois um dia ouvi uma conversa muito estranha entre ele e um cara todo de preto quando passei pelo escritório dele e era justamente sobre essa história que eles falavam, do Fernandes com a Xica. - disse o Lino com cara de medo.
- Você tem certeza do que tá dizendo? - perguntou a Vick rindo.
- Que pergunta idiota Vick, claro que ele tem, ninguém brincaria com algo assim! - exclamou Mia, que em seguida disse:
- E além do mais, eu sempre achei esse reitor muito esquisito, sempre com roupas escuras, cara fechada, óculos escuros, pele branca demais quase pálida, quase sempre mudo, a não ser quando vai avisar a faculdade toda de algo importante.
- Isso é verdade, a Mia tem razão. - disse Ângelo pensativo.
- Será que............? - perguntou a Michele fazendo cara de quem ia perder o ar.
- Não, isso é impossível! - exclamou Miguel que entendeu perfeitamente o que ela queria dizer.
__Depois de 2 minutos entramos de volta na sala e o reitor perguntou:
- Vão dizer o motivo?
- Sim, mas antes queremos te perguntar uma coisa: você conhece alguém chamado João Fernandes de Oliveira? - perguntei seriamente.
__O reitor, ao ouvir a pergunta, quase engasgou com o café que tomava na hora e nos respondeu bravo:
- Mas que coisa mais absurda, eu sequer sei quem é esse!
- Ora senhor reitor, o Lino nos contou que você falava sobre a história de Xica da Silva e João Fernandes com alguém vestido de preto um dia destes aqui no seu escritório. - falou Mia séria.
- O que isso tem de mal, esqueceram que sou formado em história? Podia muito bem estar fazendo um estudo e mesmo que fosse, isso não interessaria a vocês, pois não tenho o costume de contar minha vida pessoal à ninguém! - exclamou ele ainda zangado.
- Seria um estudo se você não estivesse falando que seria muito difícil achá-la, pois ela estava sem memória e mais algumas coisas que certamente o senhor lembra muito bem que estava falando com um alguém de nome Isidoro ou Conde da Barca, como você se referiu a ele na maior parte da conversa. - disse Miguel encarando-o.
- Oras, que coisa mais absurda e com que direito você fica ouvindo conversa dos outros?! - exclamou o reitor, que ficou tão zangado que nem se deu conta que estava nos mostrando duas adoráveis presas.
__Todos nós ficamos sem reação, exceto a Michele, que fez um tremendo escândalo dentro da sala:
- Um vampiro, um vampiro!
- Cala a boca sua poia, você tá querendo que a coisa piore?! - exclamou o Ângelo tapando a boca dela.
- Gente, a situação aqui ficou complicada, melhor a gente conversar direito. - falou a Estrela, que apesar da sua sempre completa calma, estava assustada além do que era permitido.
__Quando percebeu que tínhamos visto o segredo que o envolvia, ele tapou a boca com as duas mãos e não pôde evitar de ficar vermelho como uma pimenta.
- Então é por isso que você quase sempre fica trancado no escritório, nunca sai no sol, usa sempre roupas em tom escuro, quase nunca fala, tem a pele branca quase pálida- disse Mia com jeito de quem ria.
- Minha nossa, como pude me deixar levar pelas emoções?! E agora, o que eu faço? - perguntou ele desesperado.
- O senhor vai ter que contar o resto da verdade, é só o que você pode fazer. - disse Vick.
__Todo mundo riu e ele ficou mais constrangido ainda, porém se emocionou ao começar a contar sua história:
- Na verdade me chamo Bartolomeu Guimarães e era o contratador de uma outra cidade do sudeste na época da mineração. Era colega de João Fernandes de Oliveira na época em que estudávamos e com o tempo, fomos ficando muito amigos, quase irmãos. Chegamos até a cortar nossos dedos com lâminas e fazer um juramento sobre nossos sangues, jurando nunca deixarmos de ser amigos, mesmo que a situação fosse das piores, pessoal, política ou econômica e principalmente, nos ajudarmos, se preciso até matarmos para protegermos um ao outro! Porém, a vida quis nos separar física e psicologicamente.
__Só que nós não queríamos que o destino interferisse em nossas vidas e nós sempre dávamos um jeito de escrevermos um para o outro ou de nos vermos simplesmente. Era difícil por conta de nossos cargos e das tarefas relacionadas com eles, mas tínhamos que nos ver ou escrever de qualquer jeito, nem que demorasse um bocado de tempo.
__Então ele chegou ao Tijuco e ficou noivo de uma senhorinha chamada Violante Cabral, porém ele se apaixonou por uma das escravas da casa, chamada Xica da Silva e resolveu assumir ela como sua mulher, certamente vocês devem saber muito da história, por isso não estou dando detalhes, mas com certeza vocês sabem como isso ficou, então conto que no começo não gostei, mas depois a conheci, percebendo que eles eram feitos um para o outro e aí ajudei no que pude para que a história não acabasse, porém como a ex-noiva dele era capaz de tudo para ficar com ele, ele foi obrigado a casar-se com aquela bruxa ao ver sua amada condenada à fogueira por uma falsa acusação de bruxaria que foi provada por armação dela, maldita miserável.
__Apesar de ter se casado com a Cabral, ele nunca a tocou e vivia espancando ela seguindo meu conselho para castigá-la por todo o mal que lhe fez e quando ele e Xica se foram deste mundo mortal, vocês sabem.
- Uma parte a gente não sabe e diga-se, estou chocada com a última parte do que você contou. - disse Estrela impressionada.
- É de se esperar que você fique assim, mas se você for ver, ela não valia nada e mereceu tudo o que passou nas mãos de meu amigo. - disse ele com desprezo, em seguida contando que Fernandes virou vampiro e voltou ao Tijuco unicamente para buscar sua amada e com ela viver o resto da eternidade, que eles viveram em paz durante quase 80 anos até que um incêndio em Bordéus, na França, em 1875 estragou tudo de novo e que até hoje ele não sabia quem tinha causado tal catástrofe, já que uma turba de furiosos colocou fogo na mansão que eles moravam induzidos por alguém que ele nunca soube quem foi, mas que quando descobrisse, o mataria e que desde o incêndio nunca mais viu seu irmão de sangue.
- Caramba meu, isso é muito surpreendente! - exclamou Michele completamente assustada.
- Por que o senhor trocou seu nome para Roberto Sandro DiToldo?- perguntou Roberta, estranhando que ele tivesse trocado de nome, já que muita gente acredita em coincidência de nomes e datas.
- Por causa dos caçadores de vampiros, não quero correr o risco de ser descoberto e morto- respondeu Bartolomeu.
__Nós percebemos o que ele quis dizer com aquilo e ficamos um tanto assim, mas, ele queria se proteger e compreendíamos perfeitamente aquilo.
__Todos saímos com cara de surpresa com o inesperado rumo que a história tinha tomado mas não sem antes eu dizer sorrindo:
- Se você quiser rever o Fernandes, ele está aqui em São Paulo.
- É o que mais quero na vida Patty, por favor, diga-me onde ele está! - exclamou Bartolomeu emocionado.
- Aqui tá o endereço dele, se você quiser vá até lá e mate suas saudades. - falei emocionada, pegando o endereço do Fernandes que tava na minha bolsa.
- Você se importa de vir comigo até lá? Quero que você testemunhe esse momento maravilhoso da minha vida! - exclamou ele com lágrimas de alegria.
_Depois que todos saímos do campus da universidade, me despedi dos meus amigos heróis e fui com Guimarães até o apartamento do Fernandes. Nós andamos de ônibus durante 25 minutos de mãos dadas emocionados até chegar ao nosso destino.
__Descemos do coletivo e fomos até o prédio do vampiro loiro. Ao chegarmos, subimos até o décimo primeiro andar e fomos até o número 1.115 e eu disse pra ele esperar escondido um pouco até eu preparar o terreno.
__Bati na campainha e fui atendida por Linus, que me perguntou:
- Oras, já estava com saudades de você Patty, por onde andou e aposto que quer falar com Fernandes, não é?
- Também tava com saudades de você Linus, andei fazendo muitas coisas e realmente quero falar com ele, é um assunto que interessa muito ao Fernandes. - falei sorrindo.
- Vou chamá-lo, é que ele está um pouco ocupado agora. - disse Linus calmo.
__Esperei dois minutos até um vampiro loiro e belo aparecer na sala e me perguntar:
- O que há Patty, tem algo errado, está preocupada ou alguma coisa do gênero?
- Nenhuma delas, eu quero é te perguntar sobre um grande amigo seu chamado Bartolomeu Guimarães, você pode me falar dele? - respondi.
- Desde aquele incêndio maldito, perdi minha Xica e nunca mais o vi meu Deus! - disse ele quase aos prantos e me contando a história de sua amizade com ele, que foi a mesma que ouvi daquele que era o reitor da minha universidade e que confirmava o que mais tinha chocado Estrela.
- Olha Fernandes, eu sei que Violante não valia nada, mas pra que ficar fazendo ela de saco de pancadas? - perguntei um tanto chocada também.
- Porque eu queria que ela sofresse exatamente o que a madrasta dela sofria nas mãos do sargento mor quando era casada com ele, fazer ela engolir o próprio veneno, pagando todo o sofrimento que me causou e o mal que fez à minha amada! - exclamou ele furioso.
__Não pude deixar de ficar com medo quando ele rangeu aqueles caninos de fúria e ele, vendo que eu estava com medo, disse ironicamente:
- É assim que fica um vampiro furioso Patty.
- Isso eu já sabia, mas você se superou dessa vez. - falei ainda apavorada, pois ele parecia o diabo em pessoa quando me mostrou enfurecido suas presas.
__Ele riu, mas depois fez cara de desconfiado e me perguntou:
- Por que você me perguntou sobre Bartolomeu?
- O reitor da universidade onde eu estudo falou sobre ele um dia destes e eu ouvi. - respondi mentindo.
- Por acaso ele sabe de algo sobre mim?!- perguntou ele apavorado com a possibilidade de que alguém mais além dos meus amigos e eu soubesse sobre ele.
- Deve saber, mas não que você é vampiro. - respondi sorrindo.
- Então você veio aqui por quê? - perguntou ele ainda com desconfiança.
__Não respondi, levantei, fui até a porta e abri-a, fazendo meu acompanhante entrar e perguntar com os olhos cobertos de lágrimas:
- Lembra de mim, João?
- É você mesmo Bartolomeu, é você?! - perguntou Fernandes reconhecendo-o ainda sem acreditar, se levantando do sofá emocionado e andando na direção dele.
- Sim meu amigo, sou eu mesmo! - exclamou Bartolomeu chorando e com os braços abertos à espera de um abraço.
__Os dois se abraçaram chorando como duas crianças e Fernandes falou aos prantos:
- Pensei que você tinha morrido meu amigo, mas você está aqui vivo, vivo!
- Sim meu irmão e prometo que nunca mais vamos nos separar daqui em diante! - disse Bartolomeu muito feliz.
- Patty, você é um anjo, um anjo de cor negra com a alma mais pura do que a de qualquer branco que conheci! - disse ele emocionado e me abraçando.
- Eu sabia de alguma forma que você queria se encontrar com ele e que ele queria te encontrar. - falei sorrindo sem deixar de mostrar uma lágrima de comoção com aquela cena linda do reencontro de dois amigos.
- Assim você só prova que é a melhor pessoa que eu já conheci nos dias atuais. - disse Fernandes me dando um beijo no rosto como demonstração de carinho.
__Senti um arrepio com os lábios frios dele em minha pele, mas percebi que o coração dele era de uma bondade sem fim, o que me comoveu profundamente, porém eu não concordava com o fato dele querer se vingar de modo tão cruel daqueles que um dia fizeram ele sofrer.
__Então eu saí de lá deixando os dois amigos sozinhos para botar em dia a conversa atrasada em mais de 100 anos, pensando em como é bonito ter muitos amigos fiéis e que tudo fariam pela gente, mesmo que Bartolomeu fosse um dos poucos verdadeiros que Fernandes tivesse.
__Ia andando pela rua em direção à parada de ônibus quando ouvi uma voz gutural do meu lado:
- Xica da Silva, que felicidade te achar.
__Me virei para trás e vi um homem alto, loiro escuro, olhos castanhos muito sensuais cobertos por um óculos escuro, corpo de atleta, pele branca pálida e que estava com a mão esquerda no meu ombro brincando com meu cabelo.
- Você está enganado, na verdade sou Patrícia Puentes e pelo jeito você é um vampiro. - falei bem baixinho só pra ele ouvir.
- Sim, você acertou querida e como você pode ser outra se o rosto é o mesmo? - falou ele maliciosamente no meu ouvido e com mesmo tom que eu.
- Existem pessoas idênticas de aparência, mas diferentes de personalidade. - respondi séria.
- Essa é uma verdade profunda. - disse ele sorrindo.
- Você já acredita em mim ou ainda não está convencido? - perguntei.
- Agora dá pra ver que você não é ela, as diferenças entre vocês são evidentes. - respondeu ele rindo.
- Posso adivinhar quem é você?- perguntei com graça, olhando-o de cima a baixo.
- Pois tente. - disse ele me olhando da cabeça aos pés.
- Conde Valadares, eu suponho. - falei lembrando do que vira nos escritos do meu pai sobre a tão complexa história de Xica e mesmo que ele fosse 50 anos mais novo que a gravura que estava nos escritos do meu pai, os traços arrogantes eram os mesmos, o que não deixava dúvida que era ele.
- Suposição certa, Dona Cópia da Xica. - falou ele ironicamente, que depois disse:
- Sabia que eu achei lindo esse estilo seu?
- Agradeço o elogio. - falei, me despedindo.
- Então até outro dia, adorável patricinha. - disse ele dando risada.
__Eu tinha pavor desse tipo de apelido, mas não reagi mediante a beleza imensa daquele vampiro, mesmo sabendo que por dentro ele não era exatamente um bom caráter, bem pelo contrário, era um dos piores que eu já tinha conhecido.
__Peguei o ônibus depois de 5 minutos esperando e sentei no primeiro banco que vi, pensando em tudo o que passava naquele momento tão conturbado em que estava a minha vida, tanto que nem ligava pra qual parada eu ia descer.
__Andei de ônibus por mais de uma hora até que resolvi descer, percebendo que parei numa praça em que nunca tinha ido, mas que tinha ouvido falar que estava desativada a mais de anos e com uma casa abandonada que fora de um vereador da época do início da república, que me espantava por sua conservação, já que a prefeitura nem se preocupava com aquele lugar perdido no tempo e no espaço.
__Porém ao chegar ali perto da casa, senti uma paz que não sentia desde que essa história tinha começado, ficando encantanda com o que aquele lugar transmitia, entrando sem me importar se tinha alguém ali, subindo e descendo escadas, abrindo e fechando portas, andando de um lado pra outro, encantada com aquele universo paralelo existente ali, tanto que andei naquele lugar por horas.
__Quando me dei conta já era noite e percebi que aquele lugar ficava assustador quando anoitecia, lembrando que um lugar como aquele podia ter bandidos esperando pra me pegar e aquela paz na qual eu estava desapareceu completamente, me fazendo querer ir embora dali naquele momento sem pestanejar.
__Na hora em que estava para sair dali, notei que tinha algo se mexendo na parede esquerda e logo vi que ali tinha algo muito mais do que errado e quando ouvi uma risada sinistra atrás de mim, me virei e vi um alguém alto, cabelos pretos, olhos castanho-esverdeados, magro, todo vestido de preto e que me olhava rindo, exibindo os maiores e mais afiados caninos que eu já tinha visto em minha vida e assim eu o reconheci como sendo o homem que eu vira entrar na biblioteca da faculdade logo pela manhã, o que me fez perguntar com voz de nervosismo depois de lembrar dos fichários históricos do meu pai:
- Por acaso você é Isidoro, o Conde da Barca?
- Sou eu mesmo Xica e não era conde dos barcos como você me chamava? - disse ele com uma voz muito sinistra.
- Não sou Xica, meu nome é Patrícia, tenho 20 anos e sou uma uinversitária que está passeando. - falei com medo na voz.
- Passeando nesse lugar perdido no tempo? Será que seu papai nunca te alertou que esses lugares são perigosos quando anoitece? - perguntou ele rindo e descendo as escadas tão rapidamente que ele parecia não precisar das pernas para correr.
__Logo percebi que ele não tinha as melhores intenções e tratei logo de abrir a porta pra ir embora, sendo bruscamente agarrada pelo pulso por Isidoro, que me disse sorrindo sinistramente:
- Fique um pouco mais para me fazer companhia, querida!
- Não fico não, não mesmo! - falei me soltando dele e saindo correndo dali direto pra rua sem me importar que ela tivesse numa escuridão total.
__Percebi logo que ele veio atrás de mim disposto a me pegar, mas me virei e disse:
- Pare aí mesmo onde você está!
__Minha cruz ficou iluminada com a luz da lua, fazendo ele dar um grito horrível ao olhá-la, repelindo o símbolo cristão que estava comigo.
__Aproveitei a deixa pra sair correndo dali direto pra um bar que estava perto pra perguntar ao balconista qual o ônibus que ia pro bairro onde eu morava, ouvindo dele uma resposta consoladora, porém descobrindo que a parada ficava a quase 8 quadras de onde eu estava, o que me deixou desesperada, pois como eu ia sair dali com uma coisa chupadora de sangue atrás de mim?
__Eu fiquei pior do que antes apesar de estar com meu crucifixo, pois eu não sabia do que Isidoro era capaz, afinal, vampiros tinham muitos truques debaixo da manga.
__Mesmo sabendo que corria risco, tive que sair dali, pois já estava ficando tarde e eu queria dormir cedo, pois amanhã eu tinha um compromisso importante ao qual não podia faltar, porém de repente, um morcego voou bem do meu lado quase rasgando a pele do meu pescoço, que escapou por milagre do ataque mortal do morcego, que certamente era Isidoro transformado.
__Quando vi o morcego voando de novo na minha direção, tratei logo de arrancar o crucifixo do pescoço e atirá-lo na direção do bicho voador, que fez um barulhão guinchado ao receber um golpe de cruz na cara e fez um barulho ainda maior quando recebeu uma estaca de "prêmio extra" no lado direito do peito.
__Quando vi o morcego despencando do céu todo queimado no lado esquerdo do rosto e ensangüentado no direito do peito, dei um suspiro de alívio e me assustei ao ver quem tinha dado o tiro, Linus, que sorriu dizendo:
- Senti que você estava em perigo e vim te ajudar.
_Vi quando o morcego voltava à sua verdadeira forma humana se contorcendo de dor e dizendo com uma voz grotesca:
- Maldito miserável e você, sua....... - ele não conseguiu terminar a frase por ter começado a cuspir sangue sem parar.
- Ninguém mandou você atacar a Patty seu meliante!- exclamou Linus zangado.
__Ele desmaiou em seguida por perda excessiva de sangue, mas eu sabia que ele não tinha morrido, pois um vampiro não morria apenas por perda de sangue. Linus, ao vê-lo daquele jeito, pegou-o nos braços e o levou para a casa onde eu estava até 20 minutos atrás e o deixou por cima de um sofá. Eu, que tinha ido atrás dele não sei porquê, perguntei ao ver Isidoro mais branco do que ele era na verdade:
- Ele vai ficar assim quanto tempo mais ou menos?
- Do jeito que ele sangrou, eu duvido que ele se recupere logo, ele vai ter de beber muito sangue pra se recompor. - respondeu Linus olhando o enorme ferimento que estava no peito de Isidoro.
__De repente, um alguém de cabelos castanho escuros, olhos verdes, bigode, alto, um pouco menos magro que Isidoro, todo de preto apareceu na sala e o olhou durante dois minutos para depois perguntar pra gente com voz de quem estava furioso:
- O que houve com ele, algum de vocês o atacou?!
- Não, nós só o encontramos desse jeito e o trouxemos pra cá. - respondi mentindo e tomando a frente da situação.
- Como foi que ele foi atingido dessa maneira? - perguntou o tal, que pelo jeito era vampiro também e que olhava com espanto o ferimento.
- Não sabemos, como já disse, somente achamos ele assim perto da praça. - respondi com outra mentira.
- Esses caçadores são muito atrevidos, mas por sorte não foi pior, se tivesse sido, eu arrancaria as tripas desse pulha! - disse o cara enfurecido.
- Se você der bastante sangue pra ele, logo vai curá-lo e além disso, posso saber seu nome pra entrar em contato e saber notícias dele? - perguntou Linus fingindo ser amigável com Isidoro.
- Obrigado pelo conselho e me chamo Petroska, Yuri Petroska. - falou ele sorrindo e deixando à mostra seus afiados caninos.
__Nos despedimos e saímos daquele covil de monstros, sendo que Linus me ofereceu carona pra que eu fosse pra casa e eu, enquanto estava no carro com ele, perguntei:
- Por que você não o matou?
- Acho que não convém fazer isso, pois depois de saber do que sou capaz pra te defender, Isidoro não ousaria tentar te tocar de novo e se ele tentasse outra vez, iria pegar seu passaporte para o inferno. - respondeu ele sem me olhar e prestando atenção no trânsito.
- Tomara que não e se Isidoro contar pro Yuri que foi você que o atacou, você está frito literalmente. - falei apavorada.
- Quero ver aquele bigodudo me pegar, eu acabo com ele antes dele dar o primeiro tiro! - exclamou Linus rindo.
- Não pense que é fácil assim, você não sabe do que ele pode ser capaz. - falei, considerando tudo o que eu sabia sobre vampiros.
- Todos nós temos poderes iguais Patty, o que faz com que ele não tenha vantagens sobre mim e eu não sobre ele- disse Linus.
- Será que você sabe que vampiros treinam seus poderes para torná-los imbatíveis aos outros vampiros e humanos? Além disso, a imbatibilidade desses poderes pode não ser quebrada nem com as coisas que normalmente combatem vampiros. - falei sem entender como aquele mordomo vampiro doido podia ficar tranqüilo numa situação daquelas, em que não só ele podia correr risco como eu também.
- Outra coisa, onde anda o Fernandes hoje? - perguntei vendo que o vamp loiro não tinha aparecido pra me pregar os sustos que ele eventualmente me pregava quando aparecia.
- Ele resolveu se divertir e foi para a balada em alguma boate do centro, aposto que deve estar bebendo e dançando de montão. - falou Linus rindo.
- E a gente em perigo de montão, correndo risco por causa de um súbito ato seu! Isso é uma merda, saco! - exclamei louca da vida.
- Deixa disso Patty, nada vai nos acontecer, pois você soube muito bem como tapear aquele vampiro bobão. - disse ele rindo além da conta.
- E se ele não acreditou em mim, como é que fica, será que você já pensou nisso? - perguntei pensativa e espantada.
- Do jeito que você se expressou, é difícil você não tê-lo convencido, a não ser que ele seja muito desconfiado, algo que logo vi que ele não é. - riu ele de novo.
- Vampiros sabem fingir como ninguém. - falei tentando cortar o argumento dele.
- Não todos - disse ele gargalhando outra vez.
__Eu estava em desespero, sem saber o que fazer, completamente com a cabeça fora do lugar, mais nervosa do que de costume.
__Enquanto minha cabeça estava cheia de caraminholas, Linus ouvia e cantava alegremente uma música dos Bee Gees no rádio, dizendo para eu me acalmar, que em 20 minutos chegaríamos na minha casa.
__Depois desse tempo chegamos e eu desci na frente de casa dizendo agora mais calma:
- Obrigada pela carona, Linus, agradeço por ter me salvo apesar de ainda achar que você cometeu uma loucura.
- Sei disso, mas o que importa é que Isidoro nunca mais ousará tocar em você - disse ele alegre.
- Não sei se posso dizer o mesmo. - falei pensando no risco que estava correndo e que agora corria mais do que nunca.
- Não se preocupe Patty, sei que nada de ruim vai ocorrer com você- falou ele dando risada e logo saindo com o carro.
__Entrei em casa e cumprimentei todos os meus familiares, quando o Alberto perguntou muito preocupado em nome de todos da família:
- Patty, onde você esteve o dia todo?
__Contei como foi meu dia e minha mãe falou assustada:
- Por favor filha, tome cuidado com os lugares onde você vai e com as pessoas com quem conversa!
- Eu sei mãe, eu sei, porém eu não posso evitar o que vai acontecer! - falei em desespero.
__Ninguém disse mais nada e eu subi para o meu quarto apavorada, imaginando como seriam os próximos dias que o destino ia me dar, porém eu nem imaginava que uma coisa bem pior estava chegando.

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