Friday, March 17, 2006

Procura-se-capítulo 7 : O Carrasco de Pedra.

(Por : Renata Cezimbra)
__Acordei no outro dia mais tranqüila, mesmo que no fundo eu ainda estivesse horrível depois de ontem, pois eu correra o risco mais sério da minha vida e certamente ainda corria,pois uma hora o tal Petroska ia descobrir que eu tinha inventado a maior mentira sobre a causa do que ocorrera com Isidoro e aí sim eu ia entrar pelo buraco literalmente falando.
__Eu descobri que não estava bem de fato, resolvendo ficar em casa pra ver se ficava melhor, estudando, ouvindo música ou fazendo qualquer outra coisa que me fizesse esquecer a noite traumática que vivi ontem, mas sabendo que não seria possível.
__Uma hora resolvi ligar a tv na Net e coloquei em um monte de canais até chegar no People + Arts, um canal que só exibia documentários e programas relacionados com a vida social, vendo que estava dando um documentário sobre justamente quem? Xica da, Xica da, Xica da, Xica da Silva, a negra.
__Por um golpe do destino, ele estava bem no início e resolvi acompanhar pra ver se descobria mais alguma coisa sobre ela que não estava nos livros do meu pai e fiquei olhando com interesse cada detalhe do documento filmado sem deixar passar nada, um detalhe sequer.
__Tinha que admitir que o documentário era bem interessante, porém não acrescentara nada de que eu já não soubesse e nem era detalhado como os documentos que meu pai tinha em casa, porém algo me intrigava: todas as vezes que uma floresta era filmada pela câmera, tinha uma sombra que aparecia bem de longe, mas pra esse detalhe eu não ligava, pois o que me interessava eram os detalhes históricos.
__Quando o documentário acabou, depois de 2 horas, resolvi conversar com o meu pai e fui até o escritório, onde o vi fazendo coisas para a aula de biolgia do outro dia e perguntei:
- Pai, eu posso falar com você?
- Sim filha, fale- disse meu pai largando o que estava fazendo.
- Pai, por que você nunca me contou que tinha uma enorme biografia de Xica da Silva nos seus fichários? - perguntei olhando ele nos olhos.
- Patrícia, você andou mexendo nas minhas coisas?! Você sabe que não deve fazê-lo sem minha autorização! - exclamou ele furioso, percebendo que eu tinha mexido nos fichários dele.
- Olha aqui, eu já não tenho mais idade pra ficar sem saber das coisas, acho que você devia saber que eu já tenho 20 anos e uma hora eu ia ter que saber disso que você tem escondido! - exclamei olhando meu pai nos olhos.
- Sim, mas eu não queria que você sofresse ainda mais do que já sofreu!- exclamou meu pai me agarrando pelos braços chorando e me olhando espantado.
__Aquelas palavras me fizeram lembrar de uma coisa que ainda não contei pra vocês: que eu tinha sonhos relacionados de alguma maneira com a história de Xica da Silva, eu tinha visões estranhas ou ouvia vozes quando lia algo sobre isso e saía sonâmbula pela rua em noites de lua cheia, indo parar num cemitério pelo que meu pai contava quando eu acordava em casa, isso eu lembro que deixava meus pais extremamente preocupados e saindo desesperados à minha procura até me acharem em algum campo santo coletivo da cidade, onde eu ia parar por vontade impensada das minhas pernas.
__Só agora eu entendia o porquê disso tudo, já que no começo eu simplesmente não compreendia os motivos daquilo estar me acontecendo, sendo que minha mãe me levara ao psicológo inúmeras vezes e ele nunca achava um diagnóstico certo, dizendo que se eu não me livrasse daquilo, eu teria que ser internada numa clínica psiquiátrica. Depois do ano de 1998, os sonhos desapareceram, mas as visões e as vozes vinham com mais força, como se me alertassem de algum perigo próximo, mas eu não contava pra ninguém, mas meu pai percebia e denunciava saber de algo mais do que eu imaginava, mas eu não perguntava, pois eu sabia que ele, além de estudar história, estudava o sobrenatural e pensava que era preocupação demasiada, o que de fato ele sempre tinha.
__Naquele momento em que passava por tudo isso, percebi que os sonhos, visões e vozes eram uma premonição o tempo todo, porém eu não acreditava que fosse acontecer o que estava ocorrendo, pois eu pensava que tudo era apenas o fato de eu estar impressionada com a história de Xica de Silva, que incluía assassinatos, mutilações e outras coisas mais estarrecedoras,além de um "reinado" sem limites no Tijuco e uma linda e complicada história de amor com o contratador João Fernandes de Oliveira, eu estava ainda sem acreditar, mesmo que minha vida tivesse estado em perigo duas vezes e agora mais uma por causa de uma mentira que eu tinha inventado só para salvar Linus e eu da morte certa pelas mãos de um vampiro feroz chamado Yuri Petroska.
__Meu pai ainda me olhava quando me disse:
- Filha, faça-me apenas um favor, cuide-se com esses vampiros, você não sabe do que eles podem ser capazes!
- Eu sei sim, tanto que eu sempre me cuido com eles. - falei calma.
- Ah filha, você sempre dando um jeito de me deixar mais calmo, com a mesma coragem que tinha seu pai de sangue quando estava vivo. - disse meu pai feliz.
- Pai, será que você pode me contar sobre ele? - perguntei querendo saber mais sobre ele, já que sempre que ele se acalmava com alguma boa palavra minha, ele sempre dizia que eu era igual ao meu pai quando este era vivo, pois como vocês sabem do capítulo 1, ele morreu quando eu tinha dois anos e praticamente nunca o conheci, mas eu não costumava perguntar por ele porque eu sempre considerei Mauro como meu pai de fato, pois pai é quem cria e ele me criou.
- Eu não sei muito dele, pois conheci sua mãe depois que ele morreu. - respondeu ele como se não quisesse falar do assunto.
- Então como é que você sabe que ele era corajoso? - perguntei, estranhando aquela descrição, pois ele disse que não chegou a conhecer meu pai.
- É que ele morreu defendendo você, o Paulo e sua mãe, pelo que a Titina contou quando eu perguntei sobre sua viuvez na época em que ainda éramos namorados. - disse meu pai sorrindo.
__Vi logo que ele mentia, pois ele estava com voz de quem escondia algo mas, me fiz de desentendida. Tinha uma coisa que naquela hora não entendia: porque meu pai não me dizia a verdade de uma vez por todas sobre quem tinha me colocado no ventre da minha mãe?
__Mas o que me preocupava de fato era o que acontecia naquele momento, meus amigos podiam estar correndo perigo aquela hora por minha causa, já que eles tinham aceitado me ajudar, mesmo sabendo que era perigoso e que eles estavam se metendo em uma situação e num mundo que não conheciam.
__Depois meu pai disse que tinha que sair e eu fiquei em casa o resto do dia sozinha, já que todo mundo tinha saído pra fazer as coisas que sempre faziam, os meus irmãos mais velhos trabalhando, os mais novos curtindo as férias e minha mãe no salão de beleza cuidando da aparência das vizinhas e de outras pesoas que vinham de vários lugares da cidade.
__De repente, o telefone tocou e eu atendi, dizendo a típica saudação telefônica, mas, não ouvindo uma resposta de volta, resolvi desligar pensando que podia ser algum trote, porém, na hora em que eu ia fazer isso, ouvi uma voz aterrorizante do outro lado da linha:
- Eu sou o Carrasco de Pedra, o maior e pior servo do Diabo, aquele que tem a marca do mal, o sangue estampado no olhar, a máscara de Satã estampada na face! - que exclamava rindo horrivelmente no telefone e me deixando apavorada mais do que eu podia ficar.
__Bati o telefone no gancho extremamente assustada, mas imaginei que quem estava no telefone estava bêbado, chapado ou era louco mesmo, porém aquelas palavras ficaram na minha cabeça, ecoando na minha mente todo o tempo sem parar.
__Passaram-se horas sem que aquela frase saísse da minha mente, eu simplesmente não esquecia aquilo, a coisa mais diabólica que já tinha ouvido na minha vida, horrível demais para relembrar.
__Logo depois, eu ouvi a campainha e fui atender, vendo o Fernandes na porta com a expressão de quem estava muito ansioso.
__Perguntei furiosa:
- O que você faz aqui,será que Linus não te contou o que houve ontem ou você vai ter a cara de pau de me dizer que ele não te disse nada?!
- Patty, eu vim aqui te pedir desculpas por não estar com você quando você estava em perigo, eu nem sei o que dizer- me disse ele todo embaraçado.
- Pelo menos Linus me salvou e estou muito grata à ele. - falei sorrindo, demontrando que não estava mais zangada com Fernandes.
__Mas apesar dele ter visto que eu não estava mais brava, ele percebeu meu nervosismo e perguntou:
- O que há com você Patty,parece que você levou um grande susto antes de eu chegar ou é impressão minha?
- Eu tô nervosa sim cara! - exclamei, em seguida contando o susto telefônico que eu levara minutos antes.
- Credo Patrícia, agora fui eu que levei um susto! - exclamou ele surpreso, que em seguida se zangou e perguntou rangendo os caninos afiados:
- Quem foi que ousou te ameaçar assim?!
- Como eu vou saber, só sei que o cara era algum louco ou algo parecido, mas, com tudo o que estou passando, acredito que possa ter sido algum dos inimigos que você matou! - exclamei olhando ele nos seus atraentes olhos azuis.
- Do que você está falando, tá de brincadeira comigo?! - perguntou ele rindo.
- Não minta pra mim Fernandes, eu já sei que você fez uma porção de barbaridades estilo Elizabeth Bathory. - falei, sabendo que ele não sabia mentir pra mim, podia não ser vampira, mas já conhecia ele o suficiente pra perceber esse detalhe.
- Como foi que você ficou sabendo? Jamais contei isso pra ninguém a não ser pro Bartolomeu! - exclamou ele outra vez rangendo os caninos.
- Meu pai tem todas as páginas do seu diário, sendo que algumas que eu ainda não vi e elas contam cada coisa, eu nunca imaginei que seu amor por Xica pudesse te tornar um maníaco homicida. - falei sem entender como aquele vampiro tinha chegado naquele ponto por vingança.
- Você quer mesmo saber?! Pois eu digo, eu matei um monte de gente sim, mas fiz isso pra livrar o mundo de um bando de hipócritas que faziam questão de se sentirem superiores aos outros e se não existia justiça para os mais pobres, eu a fiz com minhas próprias mãos, que até hoje estão com o sangue destes malditos! - exclamou ele apertando as mãos e tornando as íris dos seus olhos roxas de tamanha alegria por achar que tinha feito um favor pras pessoas mais pobres daquela época em que ele fora um humano.
- De onde você tirou tanto sangue frio pra fazer essas atrocidades? - perguntei mais do que surpresa.
- Sabe qual é a resposta? Ela é simples: o ódio acumulado meu coração desde muito tempo e que explodiu no dia em que eu tive que ir embora definitivamente, com meu cargo perdido e minha felicidade indo pelo ralo por culpa daquela bruxa, que fez eu me afastar do Tijuco por uma carta que ela enviou ao rei e quando eu estava longe, ela se aproveitou disso pra fazer Xica ser presa e condenada à fogueira com provas forjadas por ela e eu tive que casar com aquela azeda pra não ver minha amada ser assada na fogueira! - exclamou ele com a fúria no auge e socando o peito, pra depois dizer rindo como Drácula:
- Mas mesmo que eu tenha casado com ela, nunca a toquei e ela enlouqueceu por causa disso, mas mesmo assim, eu me vinguei dela!
- Eu sei disso, mas eu penso que isso não justifica as loucuras sangüinárias que você cometeu! - exclamei, demonstrando que não concordava com ele.
- Sabe quais as que eu acho piores? Foram os dias maravilhosos em que já estava em Portugal e mandei meu amigo Bartolomeu torturar Violante, com socos, chutes, xingamentos, pontapés, bofetadas e etc, as vezes em que ela sentiu muita dor e gritava, implorando meu perdão, completamente louca e no dia em que mandei Bartolomeu matá-la, jogando-a da torre do castelo onde ela morava e vendo ela agonizar caída nas pedras, mais quebrada que um vaso velho, demente e seca como ela sempre foi! - exclamou ele rindo diabolicamente e exibindo as presas animalescas pra mim.
- Peraí, o Bartolomeu nos contou que era você que espancava ela seguindo conselho dele. - falei em dúvida e ao mesmo tempo chocada, pra depois dizer:
- Não posso acreditar que você foi capaz de fazer esse gênero de coisa!
- Às vezes eu participava das sessões de tortura, mas sem ela me ver e, eu apenas incitava sem olhar no rosto dela, pois eu jurei nunca mais vê-la e jamais tocá-la. - ele me respondeu sorrindo de modo diabólico e depois me falando friamente:
- Ela não valia nada, merecia a morte que lhe dei.
- Você e seu amigo são um tanto sádicos, pra fazer tudo o que vocês fizeram! - falei com espanto.
- Sabe que você tem razão Patty, até antropófagos fomos por uns momentos! - riu ele alegremente.
- Você tá dizendo que comeu carne humana?! - exclamei quase sem voz, com a bile do meu fígado querendo sair pela minha boca, tão macabra e nojenta era aquela revelação.
- Nós comemos a carne de um padre muito hipócrita que exsitia em Lisboa, sabe, eu posso dizer que ele era pior que o Cônego Dias do romance "O crime do Padre Amaro", até uma meretriz era melhor de caráter do que ele. - riu ele como se aquilo não fosse nada.
- Você enlouqueceu quando teve que se afastar de Xica, eu simplesmente concluo isso, não é outra coisa. - falei pondo a mão na minha cabeça em sinal de pensamento.
- Patty, será que você sabe o quanto amo Xica ou você nunca amou ninguém assim como eu? - perguntou ele me olhando com espanto, como se aquelas coisas horríveis que ele me disse não fossem nada.
- Sim, a gente pode amar pra caramba, mas não a ponto de matar um monte de gente por vingança, cara! E além disso, sua história de amor não ia durar a vida toda se dependesse do Marquês de Pombal e do rei D. José I. - exclamei sem entender ainda como alguém podia chegar no ponto máximo da psicose assassina.
- Se você quer saber, esse rei idiota podia tirar meu cargo de contratador por causa do novo sistema que ele pôs naquela época, mas não me afastar da minha amada e dos meus filhos! - disse ele rebatendo.
- Fernandes, você acha que um rei ia aceitar um dos seus súditos vivendo sem ser casado com uma negra alforriada? Tudo bem que você a amava, teve 13 filhos com ela, era feliz, mas, você acha que ele ia se importar com isso? - perguntei usando argumentos históricos.
- Por ele não se importar com minha felicidade, eu o matei envenenado! - exclamou ele sorrindo como o Coringa do Batman.
- Até isso você fez?! Mas eu sempre li que ele morreu de doente de velhice! - exclamei sem acreditar no que tinha ouvido.
- Essa é a versão oficial histórica, mas na verdade ele foi morto por mim, envenenamento com arsênico. - riu ele sadicamente.
- Meu Deus, a cada coisa que você diz eu concluo a mesma coisa: você enlouqueceu ao ser afastado de Xica, isso é fato. - falei ainda mais horrorizada do que antes e depois perguntando:
- Como foi que você cometeu esse crime e os outros sem que ninguém percebesse e que ninguém registrasse?
- Oras Patty, usando a inteligência, essa é uma coisa que eu sempre tive e contando com a ajuda do meu fiel amigo irmão Bartolomeu, as coisas se tornvam moleza de serem feitas e além disso, eu documentei tudo no meu diário,que diga-se, foi lido por seu adorável papai mais de duzentos anos depois- falou ele rindo, como se matar fosse brincadeira de criança.
- Mas ninguém, ninguém mesmo, desconfiou de você algum dia? - perguntei espantada com a resposta que eu recebera antes.
- Não, não mesmo, sabe, eu até acho que os roteiristas dos filmes "O abominável Dr. Phibes", "A câmara de horrores do Dr. Phibes", "As Sete Máscaras da Morte" e "Museu de Cera" se inspiraram em mim sem saber da minha história pra escrever a trama da película, pois as mortes que eu causei são iguais a dos filmes desses personagens psicopatas. - falou ele se vangloriando de nunca ter sido descoberto.
__Naquela hora eu simplesmente parei de falar, não quis dizer mais pra não escutar mais barbaridades do que eu já tinha ouvido até aquele momento, pois eu estava imaginando as cenas dos filmes que ele citara e que diga-se, eu assistira quando tinha 13 anos, misturadas com os sórdidos detalhes dos assassinatos que ele tinha cometido.
__Depois ele me olhou e falou sorrindo com suas presas:
- Uma coisa que eu quero entender é porquê seu pai não publicou meus diários, afinal, eu sei que ele é uma pessoa muito correta e nunca aceitaria esconder uma coisa tão séria e diga-se, tão abominável na visão dele.
__Sinceramente eu não sabia que resposta dar, quando ouvi a voz furiosa do meu pai atrás mim na sala:
- Eu nunca publiquei suas barbaridades por 3 motivos: eu sei do que você é capaz e não duvido que se eu tornasse isso público, você acabaria comigo e pra variar, eu não sabia que essa letra era sua até 2 anos atrás e além disso, ninguém acreditou em mim quando eu mostrei isso pela primeira vez em 1999, pois nos diários nunca constava o seu nome, apenas o apelido que tinha, que você mesmo se colocou: Raposa Sangüinária. E pra variar, eu não pude provar que a letra é sua porque eu não encontrei documentos escritos pelas suas mãos imundas que poderiam ajudar a provar que você era um maníaco homicida e hediondo!
- Olha aqui Mauro, você por acaso sabe o motivo que me levou a cometer isso que você chama de barbaridades?! Minha felicidade foi destruída por gente que não sabia que o amor não possui barreiras e por isso eu fiz isso tudo que está escrito nestas folhas! - disse Fernandes fazendo um argumento que podia ser facilmente derrubado.
- Mas isso não justifica os horrores que você cometeu, você é um monstro sem alma nenhuma- gritou meu pai quase socando ele.
__Peguei um revólver numa gaveta da cômoda que estava perto e apontei para Fernandes dizendo séria:
- Não encosta a mão no meu pai, eu atiro se você fizer isso.
- Eu não ia fazer isso e avisando, uma simples bala de revólver não me mata. - disse ele com tom calmo.
- Eu posso não ser como você, porém eu já te conheço o suficiente pra saber que você ia atacá-lo. - falei novamente séria.
__Notei logo que meu pai ficou com expressão de quem tinha perdido a compostura quando eu falei o que está escrito acima e João achou estranha a reação do meu pai.
- Pai, por que você ficou com essa cara de quem perdeu o chão? - perguntei estranhando tanto quanto Fernandes a reação dele.
- Foi apenas surpresa pelo que você disse. - falou meu pai como se estivesse escondendo algo.
Na mesma hora notei que o que ele dissera não era verdade, mas naquele momento aquilo não importava, somente queria evitar que aquele vampiro atacasse quem tinha me criado desde bem pequena.
- Ora Mauro, porque você ficou dessa maneira quando a Patty me disse aquilo? - perguntou ele rindo.
- Já disse que foi a surpresa ou será que você não ouviu? - falou meu pai ríspido.
- Tá bem, eu não quero ser incoveniente. - disse Fernandes ironicamente.
- Mas você já está sendo e isso me irrita profundamente! - exclamou meu pai com mais rispidez.
Logo eu vi que a coisa ia piorar e falei:
- Acho melhor você voltar outro dia Fernandes e me desculpe por te apontar a arma, é que eu fico nervosa quando vejo pessoas discutirem.
- Não faz mal Patty, eu entendo, ele é seu pai e é natural que você queira defendê-lo. - disse ele sorrindo e pondo a mão no meu rosto.
__Meu pai não ficou muito feliz com o gesto dele, mas não reagiu mal pra situação não ficar mais chata do que já estava.
__Fernandes se despediu e eu retribuí a despedida ao vê-lo sair pela porta aberta da minha casa, foi aí que meu pai falou danado da vida:
- Você está vendo onde se meteu ao aceitar a proposta desse monstro?! Uma hora dessas ele vai me matar e se deixar, te elimina também!
- Será que você sabe que eu sou a única maneira dele encontrar sua amada perdida? Se ele fizer algo comigo, ele jamais a verá de novo e, se ele tentar fazer algo com você, eu não vou hesitar em cravar uma estaca nele. - falei com mais coragem do que eu costumava ter.
- Ele é um vampiro e você sabe como ele é, então não é só de coragem que você vai precisar, vai ser de muita habilidade também. - falou meu pai com aquele estilo Van Helsing que muitas vezes ele tinha.
- Isso eu tenho que sobra, até demais, se é que você me entende. - falei como se aquela situação não estivesse ficando perigosa demais.
- Você fala como se isso não fosse demasiadamente perigoso, mas é e isso não pode ser negado. - disse meu pai evidentemente apavorado.
- Olha, eu sei que você tem argumentos suficientes para tentar me convencer de desistir dessa história, mas além do dinheiro que ele me ofereceu, eu encontrei um outro motivo pra ajudá-lo: o amor que ele sente pela sua amada Xica, que vai além de qualquer limite da existência, um amor lindo que desafiou todas as convenções de uma época e que não pode ficar como a rosa depois de dias no sol. - falei com meu romantismo exarcebado que se manifestava mesmo nas situações mais complicadas.
- Nessa parte de ser um amor lindo que desafiou todas as regras de uma época eu concordo, eu só não acho que ele justifique as coisas hediondas que Fernandes fez depois que foi afastado dela ou será que você não percebeu até onde o ódio dele pelos nobres que foram os "responsáveis" pela sua infelicidade o levou? - disse meu pai, sempre manifestando aquele moralismo de pedra que tinha.
- Eu sei até onde isso foi e admito que é realmente horrível o que ele fez, mas o que eu posso fazer se acho que esse amor tem que se unir de novo? - falei olhando meu pai que ainda estava apavorado.
- Filha, eu também acho que eles tem que ficar juntos pra sempre, porém eu temo que ele queira apagar a gente pra que nós não revelemos seus podres, afinal, você acha que o Fernandes ia querer que todo mundo soubesse que ele foi um assassino dos mais cruéis? - disse meu pai pegando um cigarro num dos bolsos da camisa.
- Pra resfrescar sua memória, lembra do que você falou sobre a história da letra dos diários do vampiro? - perguntei, demostrando que não tinha esquecido o "discurso" que ele tinha feito na hora em que chegou em casa.
- Ah sim Patty, está certo, não pude provar que aquela letra é a dele, que droga! - exclamou Mauro com um sentimento de frustração.
- Pai, será que você sabe que mesmo que publicasse esses diários, não adiantar nada? Afinal, oficialmente João Fernandes de Oliveira está morto a mais de 200 anos e mesmo que todo mundo soubesse que ele é um homicida, não poderia ser julgado por ninguém, pois ele já bateu as botas- falei usando um argumento bem batido, mas que sempre dava certo.
__Meu pai deu uma bufada furiosa e disse mais frustrado ainda:
- Pior é que você está certa filha, não ia adiantar nada mesmo!
__Consolei meu pai acariciando os cabelos fartos dele e sorrindo, logo vendo que ele estava mais feliz, pois toda a vez que eu fazia isso meu pai ficava melhor e isso me tornava imensamente alegre, pois eu não suportava ver meu querido pai triste.
__Depois disso, fomos assistir um filme na Net e ficamos comendo pipoca e tomando refri, enquanto meus outros irmãos estavam ocupados: o Alberto com as suas saídas noturnas que nunca tinham um motivo específico, Mariana com seu computador no quarto, a Lia e o Max jogando vídeo game no dormitório deles, o Paulo junto com o Alberto e minha mãe aprontando seus quitutes pra vender junto com seus serviços de cabeleireira, manicure, pedicure, depiladora e etc, que ela fazia junto com mais 2 amigas.
__Passaram-se umas 3 ou 4 horas e eu já estava deitada tentando dormir, mas sem conseguir por conta das coisas horríveis que eu tinha escutado no início da noite, pois eu jamais tinha ouvido algo semelhante na minha vida.
__Uma hora não sei porquê, resolvi levantar pra olhar o céu estrelado lá fora e fiquei viajando por uns minutos pensando no que tinha ocorrido comigo desde o início dessa história, imaginando o que seria nos próximos dias, se eu conheceria mais pessoas estranhas, passaria perto da morte mais uma vez, saberia mais coisas horríveis, mas a única coisa na qual eu queria pensar era que nossos vizinhos dona Céu, Das Dores, Martim e Consuelo, primeira filha do Gonçalo com a falecida Estela, chegariam dos Estados Unidos, onde todos tinham ido pra ver um congresso de medicina do qual a última fora convidada para participar, cuja viagem tinha sido paga pelo hospital onde ela trabalhava como clínica geral e eu iria buscá-la e os outros junto com meus pais e a Mariana no aeroporto.
__Porém, ao me sentar na cama para deitar, senti duas mãos geladas puxarem meus pés debaixo da cama me levando ao arrasto pra debaixo dela como se o chão abaixo dali tivesse um buraco onde eu ia entrar e comecei a gritar igual louca agarrada com força no pé da cama, na tentativa de fazer alguém me ouvir, quando meu pai escancarou a porta do meu quarto gritando junto com minha mãe:
- Patty!
__Aquele grito desesperado e os passos dos meus irmãos no corredor foram as últimas coisas que ouvi antes de me soltar brusacamente e parar num limbo escuro e deserto, como se estivesse sendo transportada para algum lugar, puxada pelos pés brutalmente.
__De repente, caí de bruços num lugar duro, logo sentindo uma dor tremenda na região abdominal devido à batida da queda e vi que estava no que parecia ser uma cela e perguntei desesperada:
- É você de novo, meu inimigo oculto, que já me seqüestrou uma vez?!
__Como resposta, a mesma risada que eu ouvira no telefone horas antes ecoou ali onde eu me localizava, tremendo de frio, pois eu estava com um pijama bem fininho e naquela noite estava uma temperatura mais baixa.
__Quando reconheci a gargalhada, fiquei ainda mais desesperada e perguntei com medo na voz:
- Você é o Carrasco de Pedra?
- Sim senhorita, o pior e maior servo do Diabo! - exclamou ele com a mesma voz sinistra que eu ouvira no fone horas atrás ao mesmo tempo em que saiu do escuro onde estava para que eu o visse.
__Aquela imagem apavorante jamais sairá da minha cabeça: um vulto alto, esbelto, com uma enorme capa preta, mãos grotescas com unhas compridas, pontudas e um rosto que parecia saído do filme "Black Sunday-A máscara do Demônio"(1960), cheio de buracos nas bochechas, no queixo, na testa, como se ali tivesse sido cravada uma máscara com pregos afiados, lábios finos que exibiam um sorriso macabro, com dois caninos enormes e afiados, que se destacavam, os olhos vermelhos e penetrantes, além dos cabelos negros, compridos e lisos que estavam presos com uma fita, dando uma aparência ainda mais terrível pra ele.
__Eu não parava de olhá-lo e estava sem acreditar que aquele personagem que estava ali era o tal carrasco que me ameaçara, ele era mais horrível do que eu havia imaginado, a coisa mais inominável que eu já tinha visto na vida.
__Ele ria muito me vendo apavorada e eu só pensava que ele podia estar me confundindo com Xica, afinal, ele com certeza devia ser algum dos inimigos de Fernandes, que o vampiro tinha matado pra se vingar por sua felicidade perdida, mas eu observei melhor aquela criatura e quando lembrei da história da família Cabral que estava escrita junto com a de Xica da Silva, eu reconheci o tal personagem e fiquei ainda pior do que estava antes, dizendo:
- Eu já vi seu rosto em algum lugar, conheco você.
- Eu imagino que você já tenha me visto e certamente você deve estar perguntando qual o motivo de você estar aqui. - disse ele rindo sinistramente e tornando sua aparência normal de modo inexplicável.
- Eu adoraria saber o porquê e, como foi que você ficou sem as marcas que eu vi antes na sua cara?! - falei surpresa.
- Primeiro: eu fico com elas apenas quando a máscara de Satã se mostra, que no caso seria minha transformação em vampiro monstro e segundo, o porquê de você estar aqui é bastante simples: eu quero usar você e o contratador para me vingar de quem me fez tão mal, que no caso seriam minha irmãzinha Violante, meu papai Cabral e aqueles malditos Conde Valadares e Frei Expedito, além disso, eu quero te utilizar para localizar minha amada, já que você possui as lembranças de Xica, tanto as de vida como as de pós-vida, até o dia em que ela supostamente morreu- disse ele sorrindo e observando meu busto que se destacava no pijama de seda.
- Como é que você sabe todas essas coisas se a gente nunca se viu até esse momento e pra variar, como você pode ter tanta certeza de que ela é vampira? - perguntei sem imaginar como ele sabia aquelas informações e pensando como ele sabia que ela era como ele, afinal, eu vira muito bem a cena em que Micaela tinha sido baleada, além de ter lido essa mesma cena nos livros secretos do meu pai.
- Andei na sua volta disfarçado de vários jeitos desde que vi o Fernandes se deparando com você naquela locadora e além do mais, vampiros sentem uns a presença dos outros. - respondeu ele à queima-roupa.
- Você já procurava ele a muito tempo ou já sabia que ele estava aqui querendo encontrar Xica e, não pode usar seus poderes pra encontrá-la? - perguntei do mesmo modo que ele me respondera antes.
- Mas é claro que eu já sabia desse detalhe que você citou por último, mas não me manifestei por não achar que era necessário no momento, mas como descobri esse seu segredinho, achei que era melhor aprisionar você pra te usar nos meus propósitos e além disso, eu já tentei isso, mas não consegui por motivos que não te interessam. - falou ele rindo.
- Por que você não me pediu de forma mais fácil? Teria sido melhor, eu acho. - falei olhando ele espantada.
- Se esse maldito Fernandes tivesse me ajudado quando nós fomos perseguidos pelos dragões na mata, minha Micaela não tinha morrido e não tínhamos nos separado, então eu não permitirei que ele encontre sua amada, essa será minha vingança contra ele, matarei ele e depois você!- exclamou ele se agarrando nas grades da minha cela.
- Meu Deus, você é louco ou algo parecido ou não se deu conta que ele te ajudou da maneira que pôde, mesmo que tenha sido pouco e porquê você quer me matar?! - exclamei horrorizada com o que ele pretendia.
- Quem me ajudou de fato foi Xica, ela sim foi um anjo, mas ele, apenas para não ficar mal diante do rei, nem se deu ao trabalho de nos encobrir quando fugíamos, pois ele sabia que estávamos no quilombo! - gritou ele socando a parede, pra depois me responder na maior frieza:
- Porque eu não vou querer que você peça ajuda aos amigos de Fernandes para se vingar de mim, afinal, eu logo vi que a senhorita faz bem esse tipo.
- Você está me julgando errado, eu não sou assim- falei mentindo, já que eu de fato seria bem capaz de me vingar daquela criatura, pois eu já estava muito amiga de Fernandes pra permitir que aquela coisa fizesse algo contra ele, mesmo que eu tivesse ficado sabendo de coisas estarrecedoras sobre o vampiro loiro.
- Será mesmo que estou? - perguntou ele com ironia.
- Sim, você está e pra variar, eu ajudo todos sem distinção, se você quer mesmo saber, Luís Felipe Cabral. - falei encarando-o de frente.
- É mesmo, então você não vai se importar de ficar morando por aqui, não é? - perguntou ele gargalhando.
- Pra que você quer me deixar presa, já não te ofereci minha ajuda?! - perguntei com espanto.
- Você acha que eu sou bobo ou algo parecido? Sei muito bem que você iria correndo pedir ajuda para aquele maldito quando eu te libertasse! - exclamou ele abrindo a porta da minha cela e tirando uma corda de dentro da capa pra me amarrar.
__Nem tive tempo de reagir porque ele era muito rápido e no fim, acabei sendo amarrada e amordaçada, parecendo a Juliana da novela Mandacaru, que era aprisionada pelo cangaceiro Tirana. No meu caso, eu estava sendo a prisioneira de um protótipo de Drácula misturado com Princesa Asa e não sabia o que era pior naquele momento: eu prisioneira de um vampiro pela segunda vez ou como meus pais, irmãos e amigos estavam, pois eles certamente já deviam saber que eu tinha sumido, pois meu pai fazia um alarde daqueles, mesmo não podendo chamar a polícia, já que ela não teria como resolver meu problema, mas eu ficava imaginando era o Fernandes, como devia estar, já que apesar das nossas discordâncias, ele gostava muito de mim.
__Foi pensando em tudo isso que eu acabei adormecendo ali onde eu estava, mesmo que aquele chão fosse duro e desconfortável.
__Depois de umas 6 ou 7 horas eu acho, acordei com um espelho bem diante dos meus olhos, que refletia meu semblante preocupado e meu corpo amarrado, além de um bilhete enorme na parte inferior do espelho, que dizia: "Delicie-se com a agonia dos seus entes queridos procurando por você, chorando preocupados à procura de alguém que eles nunca mais vão ver."
__Naquela hora não suportei mais, desatei em lágrimas ali onde eu estava tentando me soltar, ficando com meus olhos embaçados enquanto o espelho começava a exibir imagens como se fosse uma tv e eu percebia que era impossível eu sair daquela cela sem ajuda.
__Depois de vários minutos tentando me livrar das cordas, por um milagre eu finalmente conseguira me desamarrar, mesmo que naquele momento eu tivesse com uma mega dor nos pulsos, que estavam arroxeados por conta da pressão das cordas e, tive que sentir mais dor ainda pra mexê-los e tirar a mordaça da minha boca, além de desamarrar os meus pés e pernas, que estavam igualmente roxos por causa da força que Luís Felipe tinha usado pra me amarrar.
__Quando finalmente estava livre das amarras, levantei para ver se tinha alguma saída daquele lugar maldito, mas eu percebi que ia ser difícil, pois o caixão daquela criatura horrível estava a exatamente um metro e meio de onde eu estava e se eu fizesse algum barulho muito alto, poderia acordá-la, mas tinha um detalhe: pra que eu não ia aproveitar aquele momento para fugir? Afinal, eu sabia que ele estava num estado cataléptico e assim ficaria até chegar a noite, mas, eu vi que tinha um problema: segundo eu sabia, vampiros mesmo dormindo, podem perceber e controlar os movimentos de quem está perto deles e agora, eu estava num mato sem cachorro, sem saber o que fazer, tendo como minha única opção esperar que um milagre acontecesse.
__Olhei para o espelho e vi que ali estava a minha casa, com meus pais e irmãos desesperados por alguma notícia minha, minha mãe chorava e soluçava sem parar, meu pai andava de um lado para outro, a Mari e o Alberto ligando pros meus 8 amigos da faculdade e pra Mila, avisando do meu sumiço, o Paulo tentando consolar a mãe e Lia e o Max se abraçavam aos prantos dizendo:
- Volta logo maninha, a gente te ama e não quer te perder!
__Eu via que todos ali já sabiam da história do vampiro João Fernandes de Oliveira e estavam sem saber o que dizer ou pensar, quando meu pai Mauro explodiu aos gritos:
- Se a Patty não tivesse aceitado a proposta dessa criatura do Diabo, as coisas não teriam chegado nesse ponto, Deus! O que vamos fazer?!
- Não sei pai, talvez a única coisa que possamos fazer é pedir ajuda pro tal Fernandes. - falou o Alberto com cara de quem estava sem opção.
- Pra aquele monstro eu não peço ajuda é nunca! - exclamou meu pai quase agarrando-o pela gola da camisa, tão louco ele tava.
- Pior é que o Alberto tá certo pai, ele é o único que pode nos ajudar a tirar a Patty de onde quer que ela esteja e além disso, você não quer perder sua filha e nossa irmã, quer? - disse o Paulo tão sem opção quanto o "irmão" mais velho.
__Meu pai caiu nos prantos e eu não pude agüentar aquilo, começando a chorar junto com ele, mesmo de longe.
__Quando olhava o Alberto e o Paulo juntos, achava que eles eram irmãos de verdade, tão unidos eles sempre estavam e agora tendo que usar uma opção que eles achavam indesejada pra me salvar. Logo depois o Paulo perguntou:
- Por acaso você sabe se a Patty tem algum telefone ou endereço onde a gente possa localizar esse cara?
- No quarto da Patty tem uma agenda cinza e lá tem dois telefones e endereços dele, sendo que os últimos ela tem de quando sumiu da primeira vez. - respondeu meu pai ainda chorando.
__Os dois subiram e o espelho parecia uma câmera de circuito interno de tv, pois flagrava todos os movimentos que eles faziam até que o foco da "filmagem" foi para a porta da minha casa, por onde entrou uma Mia histérica aos berros:
- Meu Deus, cadê a Patty, cadê ela, alguém me diz por favor, eu não vou suportar ficar sem notícias da minha amiga! - enquanto as minhas outras amigas que estavam com ela olhavam pra todos na minha casa com cara da mais intensa preocupação e quase caindo pranto do rosto das coitadas.
- Nenhum de vocês tem idéia de onde ela está? - perguntou Estrela tentando segurar o choro.
__Enquanto as outras meninas estavam muito tristes, os meninos chegaram voando às tranças, perguntando onde eu estava ao mesmo tempo, tanto que ninguém entendia o que eles falavam.
- Calma pessoal, nós vamos encontrá-la. - disse o Max tentando acalmar as garotas e os garotos.
__Logo notei que alguns vizinhos, entre eles o Gonçalo, estavam na volta da minha casa pra saber o que estava acontecendo e o meu pai inventou a velha desculpa de que eu tinha passado muito mal por conta da asma que eu tinha desde criança e que os meus amigos tinham vindo a meu pedido porque eu não queria ficar sem a companhia deles até melhorar.
__Aí o espelho "flagrou" o Gonçalo entrando e falando baixo só pro meu pai ouvir:
- Você está mentindo pra mim Mauro, algo mais grave aconteceu e acho melhor que você me conte.
- Com uma condição, que você espante o resto dos vizinhos que estão aí, eu não quero eles fazendo comentários na porta da minha casa. - disse meu pai um tanto taxativo.
__Eu vi a cena em que o Gonçalo disse algumas coisas pros vizinhos sobre mim e meu estado de saúde e aí eles foram embora como meu pai desejava.
__Em seguida o Gonçalo entrou perguntando o que estava acontecendo e meu pai contou desesperado tudo, deixando Emanuel(primeiro nome do Gonçalo) tão desesperado do que ele:
- Pelo amor de Deus Mauro, como vocês deixaram isso acontecer?!
- A gente não pôde fazer nada Emanuel, bem que a gente tentou, mas foi tudo rápido demais. - disse o Alberto com uma ponta de culpa por não ter conseguido evitar meu seqüestro.
__Eu fiquei muito triste ao ver o Alberto daquele jeito, pois eu odiava vê-lo triste.
__O Gonçalo se sentou sem ainda acreditar no que estava acontecendo enquanto a Mila chegava aos prantos com os 3 padrinhos, sabendo do que tinha me acontecido e o Zé Maria dizendo abraçado com ela:
- Não chore Milinha, a gente vai achar a Patty logo logo.
- Como vamos achá-la logo se nós não temos a mínima idéia de onde ela está ou de quem a raptou?! - exclamou Elvira, colocando suas presas de fora de tanta raiva.
__De repente eu vi através do espelho mágico o Alberto e o Paulo descendo com a minha agenda e o primeiro dizendo:
- O que você acha que devemos fazer, ir até a casa do monstro ou ligar pra ele?
- Vamos ligar e ver o que acontece. - falou o Paulo pegando o telefone e discando o número do Fernandes.
__Depois o que eu vi foi uma conversa rápida pra depois o Paulo dizer:
- O "Contratador" está vindo pra cá, estará aqui em 20 minutos, já que ele não pode usar os poderes dele a essa hora do dia.
- Eu não faço questão alguma de recebê-lo. - falou meu pai com frieza.
__Nesse meio tempo a Mariana tinha ligado pro Mercúrio pra avisar do meu sumiço, o que pelo jeito deixou ele desesperado, pois ele deu um berro no telefone que até eu ouvi dizendo que ia com o Cabral pra minha casa imediatamente.
- Mais um vampiro não, por favor Mariana! - exclamou meu pai no maior estresse.
- Se nós chamarmos todos os vampiros com quem a Patty já teve contato, vai ser mais fácil da gente ajudá-la- falou Mariana confiante como ela sempre era.
__Meu pai sacudiu a cabeça achando que a Mariana tinha enlouquecido, enquanto minha mãe rezava pra que eu estivesse bem.
__Nesse meio tempo o Max falou:
- Mari, acho que a Patty fez contato com mais dois vampiros, um casal de strippers que se apresentam no Sheraton, Namor e Morgana são os nomes deles.
- Max, como é que você pode achar isso? - perguntou Mari achando que ele tava brincando.
- Teve um dia que eu cheguei em casa antes da Lia e subi pra dar um beijo na Patty e a ouvi falando com um português no quarto dela sobre um escândalo que ela fez no hotel, as garotas amigas dela podem explicar melhor isso, já que eu fiquei sabendo por fonte secreta que elas estavam com ela quando isso ocorreu. - falou o Max passando a palavra pras meninas.
__A Estrela tomou a situação e contou a situação que tinha acontecido no capítulo 5 : a dor de cabeça, o desmaio, quando reconheci o Pereira e a briga que resultou na descoberta da história que eu passava pelos meus amigos, deixando o meu pai pior que antes e querendo esganar um e o resto do pessoal surpreso e eu ainda mais surpresa, pois naquele dia não tinha visto o Max voltar e conseqüentemente, escutar minha conversa com Pereira.
__Quando ela terminou de contar tudo, Fernandes chegou junto com Linus perguntando o que tinha acontecido e o meu pai disse furioso:
- Você viu as conseqüencias de a Patty ter aceitado sua proposta?!
- Me diz o que houve com ela por favor Mauro. - disse o Fernandes muito apreensivo.
__Sem receber resposta, o vampiro logo adivinhou o que tinha me acontecido e ficou num desespero que eu jamais tinha visto:
- Que merda, eu devia saber que isso ia acontecer com ela, porquê eu não cuidei dela como devia?! Agora ela desapareceu e eu não sei por onde começar a procurá-la, que droga!
- Não é hora de você ficar assim, João Fernandes, agora temos que pensar no que fazer. - disse o Cabral que tinha acabado de entrar com o Mercúrio na minha casa.
__Vi o Fernandes se virar pra trás e dizer quase dando um soco no Cabral:
- O que você tá fazendo aqui sargento merda, veio pra rir da minha cara?!
- Não é hora da gente ficar brigando, temos que nos unir pra salvar a Patty! - exclamou o Gonçalo querendo evitar uma briga.
__Nesse tempo, eu vi um quinteto de gente vir na direção da minha casa que eu logo reconheci como sendo a Flor, Dona Céu, Martim, Das Dores e Consuelo, que tinham chegado do aeroporto e vendo a confusão que estava ali onde eu morava, largaram as malas na porta da casa e foram ver o que era. Aquele espelho na minha frente mais parecia uma câmera, pois ele flagrava qualquer movimento, fala ou expressão de quem estava no local e trazia as imagens para os meus olhos como se fosse uma televisão.
- O que está havendo aqui, porque todos vieram pra cá, alguém responda por favor?! - perguntou Martim preocupado.
__Fernandes nem teve tempo de reagir, mas a Céu em compensação falou furiosa:
- Por quê você sempre nos perturba João Fernandes, por quê, você não se cansa de querer nos destruir?!
__O loiro quase meteu um bofetão na cara dela, mas foi impedido pelo Martim, que segurou com força a mão dele e perguntou o que tinha acontecido, recebendo uma resposta bem longa do meu pai, que durou bastante no quesito fala por conta dele ter contado toda esta história desde o começo até o meu seqüestro de agora.
__Os cinco que tinham chegado ficaram sem fala, sem saber por onde começar a me ajudar e agora, todos que estavam na minha casa não sabiam o que fazer por mim e eu, olhando toda aquela cena nas primeiras horas do meu rapto, começava a perder a única coisa que me restava: a esperança.

Procura-se-capítulo 6 : Onde menos se espera,está o inesperado.

(Por : Renata Cezimbra)
__Desde aquele sábado horrível no hotel Sheraton, comecei a ter fortes dores de cabeça um tanto freqüentes e elas, de acordo com o clima de cada dia, passavam ou pioravam, tanto que perdia aulas na universidade, mas tinha a sorte de recuperá-las e elas estarem acabando, já que estávamos em janeiro de 2001. A partir daqui, os fatos passam a ser datados do ano citado neste período de texto.
__Os dias passavam sem que nada de importante acontecesse, mesmo que estivesse apavorada com a possibilidade de que Fernandes pudesse ter mudado de opinião sobre mim, o que não seria nada bom e além disso, o inimigo oculto que eu temia não se manifestava desde o fim do terceiro capítulo dessa história, o que me fazia pensar que ele tramava algo de muito ruim, pois depois que eu fora seqüestrada e correra risco de vida, esperava qualquer coisa dele.
__Então resolvi passear um pouco pra esfriar a cabeça e aí passei no parque do Ibirapuera, como era meu costume quando era mais nova e ficava muito esquentada.
__Andava sem rumo pelo parque no meio da tarde quando levei um susto ao ouvir uma voz:
- Ei Patty, o que há com você, por que está com essa cara?
__Comecei a chorar nos braços daquele que eu reconheci como sendo o único com quem eu podia desabafar naquele momento, Mercúrio, que me perguntou:
- Conta pra mim o que tá havendo querida, não tenha medo de falar.
- Você sabe o que aconteceu comigo nos últimos dias! - exclamei completamente triste.
__Em seguida contei à ele tudo o que tinha me acontecido, o que pensava, sentia, queria. Ele me olhou de forma espantada e falou com cara de quem queria fazer um alerta:
- Que eu saiba quem possui de alguma forma lembranças de uma pessoa morta é a reencarnação dela, então você está em perigo de alguma forma a não ser que.......
- O que, cara?! Diz de uma vez, se não entro em parafuso! - exclamei desesperada.
- Que as lembranças de Xica podem estar na sua mente devido ao fato dela estar sem memória, pois quando um vampiro perde suas lembranças, essas vagam durante anos até encontrar algum sósia onde elas possam se alojar e nesse caso, você foi escolhida, isso se ela estiver viva como você pensa. - disse ele calmamente.
- Nunca vi isso em nenhum livro, filme ou seriado de vampiros e além disso, sei que ela está viva, como não sei, mas sei que ela está. - falei sem saber o que pensar.
- Será que você não sabe que os filmes, livros, seriados ou qualquer outra coisa que os mostre não são fiéis à lenda das criaturas da noite? Tem muita coisa deles que ninguém mostra nos filmes, que muita gente sequer imagina que seja verdade. - disse ele rindo.
__Tive que rir daquilo, pois era realmente engraçado, mas depois parei, pois aquilo era um bocado sério ao mesmo tempo, porque poderia passar por situações bem embaraçosas devido a esse detalhe.
__Nós saímos juntos do parque em direção a outra calçada, onde estava a moto dele e enquanto conversávamos, percebi que um carro preto nos seguia e não gostei nem um pouco daquilo.
__De repente, como no filme "Missão Impossível", a janela do carro preto abriu e uma chuva de tiros começou, fazendo nós dois nos jogarmos no chão para não sermos atingidos, algumas pessoas próximas dali correrem para se esconder e outras gritarem alertando os que passavam para se abrigarem num lugar seguro.
__Como num ímpeto, os tiros pararam e o carro saiu dali em disparada, como que fugindo. Nós ainda estávamos apavorados com aquele inesperado fato, quando perguntei mais apavorada do que de costume:
- Que foi aquilo, cara?!
- Não posso imaginar, só sei que foi horrível! - exclamou ele ainda mais apavorado.
__Saímos dali o mais rápido possível direto pra "Casa de Portugal". Quando chegamos, Cabral nos perguntou, vendo nossas expressões:
- O que houve com vocês, parece que viram fantasmas.
__Mercúrio contou tudo quase sem fôlego pra falar, o que deixou ele apavorado e perguntando, com aquele senso de amizade:
- Você tá bem, não se feriu?
- Não importa eu, importa é a Patty, que era o alvo dessa história. - disse ele me olhando.
- Por que ela era o alvo, que eu saiba não há nada de especial com ela ou há? - perguntou ele com ironia.
- Deixa disso Cabral, a coisa é séria! - exclamou ele bravo.
__Em seguida ele contou tudo que acontecera comigo a dias atrás e o que pensava ser as possíveis causas disso, o que o deixou com cara de desconfiado e dizendo:
- Essa é a coisa mais surpreendente que eu já ouvi na minha vida!
- Nem diz, isso é muito pior. - disse Mercúrio nervoso.
- Pior do que isso, o que pode ser? - perguntou Cabral ainda mais surpreso.
- Não é só ela o alvo, eu, você, o Fernandes e todos que estiverem à procura de Xica. - disse Mercúrio sério.
- Esse merda e ela que se fodam sozinhos, eu não vou nessa com eles! - disse ele querendo distância de tudo isso.
- Olha aqui, eu aposto que você quer achá-la pra fazer o que não pôde com ela, sargento merda! - exclamei furiosa.
- Não vamos começar a brigar agora, por favor. - disse ele, percebendo que estávamos a ponto de trocar insultos piores, já que ele também queria dizer alguns na minha cara.
- Só vai depender dela parar de me dizer desaforos. - disse ele me olhando seriamente.
__Ficamos trocando olhares sérios durante minutos até que o Mercúrio disse:
- Vamos parar com isso pela segunda vez, por favor.
__Paramos e ficamos pensando no que fazer até que perguntei:
- Você quer acertar alguma conta com Xica?
- A resposta é simples, quero pedir perdão pelo mal que fiz à ela quando era minha escrava. - respondeu ele sorrindo.
- Você pedindo perdão?! - perguntei rindo e em seguida dizendo:
- Por acaso você se lembra da vez em que você me confundiu com Xica e quase me matou por causa disso?.
- Tem algo errado isso ou você não acredita em mim? - perguntou ele sério, que depois me disse:
- Já te falei um dia que naquele sábado estava de mau humor e você não sabe nem a missa metade do que um vampiro mau humorado.
- Acreditar em você pra mim é impossível, eu não consigo ver você como outro alguém a não ser o sargento mor cruel que vejo nos livros secretos do meu pai. - falei séria.
- Olha, se você não quer acreditar em mim, vou entender. Mas saiba de uma coisa, o tempo vai te ensinar que sou outro alguém e além disso, se você estiver em perigo, vou te ajudar. - disse ele suspirando.
__Juro que não pude acreditar no que ouvi, eu não ia com a cara dele e mesmo dizendo todo o tipo de desaforo na cara dele, ele suportava com compostura, algo que na época da história de Xica da Silva ele não admitia e retribuía com violência quando ouvia.
__Depois me despedi e fui embora pra casa pensando no que Cabral tinha me dito, ainda sem acreditar naquilo e perguntando pra mim mesma:
- Como isso pode ser possível e por que?
__Cheguei em casa e percebi que ninguém estava, vendo um bilhete que dizia que a mãe e o pai tinham ido no mercado, o Alberto ido fazer hora extra no trabalho, a Mariana ido na universidade fazer um trabalho e a Lia e o Maximilien no colégio no horário da tarde.
Fiquei um tanto aliviada apesar de detestar ficar sozinha, pois precisava ficar só pra pensar.
__De repente, comecei a sentir que algo não estava bem, o silêncio demasiado estava ficando mórbido, estranho, desagradável, mas pensei que era apenas o fato de estar sozinha e fui até a cozinha tomar café e quando entrei, achei estranho que a porta dos fundos estivesse aberta, já que os meus pais e irmãos não costumavam deixar nenhuma porta sem trancar quando saíam e eu, apesar de estar com as chaves da casa, não tinha aberto nada a não ser a porta da frente, o que me deixou muito assustada, pois tinha percebido que algo estava realmente errado e aí peguei uma faca no faqueiro para me defender caso tivesse um ladrão dentro de casa.
__Resolvi me trancar no quarto pra ficar mais protegida, porém quando tranquei a porta do quarto e me virei, vi o Pereira me dar um bu irônico na cara.
- Surpresa ao me ver, Patricinha pobre? - disse ele rindo.
- Vai embora daqui, não quero falar com você! - exclamei louca da vida e apontando a faca pra ele.
- Não saio daqui sem conversarmos! - exclamou ele bravo, me desarmando, jogando a faca longe, me agarrando à força pelos braços e me jogando no puf da esquerda.
- Nunca mais faz isso comigo seu filho da puta! - exclamei quase esbofeteando a cara dele.
- Então me deixe falar com você pelo menos. - disse tentando me acalmar, apesar de não ter gostado nada do insulto.
- Tá bom, mas quero que você seja rápido, pois estou ainda muito brava por conta daquela história no hotel naquele sábado, em que você quis me matar e acabar com a Estrela! - gritei.
- Então tá, o que vim falar é uma pergunta:
- Como foi que você me reconheceu? Isso sendo que você não é Xica como me disse Guiomar depois que despertei do coma que fiquei devido aquela batida horrível na cabeça causada por aquele sabugo de milho gigante quando este tentou me matar com aquela estaca. - disse ele me olhando de forma espantada.
- Como não sei, só sei que aconteceu e isso foi ruim. - falei querendo que ele logo fosse embora.
- Se você responder o que aconteceu, acho que vou começar a entender o escândalo que você aprontou no hotel aquele dia. - disse ele com espanto.
- Aconteceu que quando você estava fazendo o strip, comecei a sentir uma dor de cabeça horrível, como se fossem prensas pressionando minhas têmporas e de repente desmaiei no teatro e quando despertei depois de 3 minutos, umas lembranças estranhas do Tijuco, lugar que nem conheço, vieram na minha mente e sua família foi a primeira que apareceu, sendo que a Xica quase não convivia com vocês. - falei sem conseguir ordenar meus pensamentos naquele minuto.
__Não pude deixar de ter medo quando ele me olhou de forma brava, mas depois ele acalmou aqueles belos olhos negros e me disse:
- Podíamos não conviver muito com aquela macaca em forma de fidalga, mas ela sabia que nós a detestávamos.
- Me diz uma coisa, por que vocês brancos do Tijuco daquela época a detestavam, sendo que ela era tão gente quanto vocês? - perguntei com espanto.
- Por que ela vivia nos humilhando, fazia questão de pisar na gente como se fossemos lixo! - exclamou ele furioso.
- Tudo bem, mas vocês davam motivos pra ela fazer isso, então, se vocês não a tratassem mal, quem sabe as coisas tivessem sido diferentes. - falei com propriedade.
- Posso te dar razão, mas se você a conhecesse como nós conhecemos, teria a mesma reação que a nossa. - disse ele sorrindo e tentando cortar meu argumento.
- Acho que não teria se convivesse com vocês. - falei, mostrando que ainda mantinha minha opinião sobre aquilo.
- Olha, não vem com suas indiretas não! - exclamou ele furioso de novo.
- Isso é uma bem direta! - revidei.
__Ele bufou pra caramba, enquanto ria da cara dele, até que ele me disse:
- Sabe de uma coisa? Até compreendo que você me deteste, afinal, fiz muito mal às pessoas da sua raça e seu instinto de proteção e defesa fala mais alto.
- Você ainda é um racista como eram os seus "colegas" na época do Tijuco? - perguntei.
- Não mais, descobri do pior modo que não vale a pena discriminar ninguém. - respondeu ele duramente.
- Aposto que sei como, foi preso com sua família em 1750 e poucos por ser um cristão novo ou judeu, não foi? - perguntei observando-o.
- Só eu e Guiomar fomos presos de fato, pois minha filha mais velha morreu de complicações causadas por um aborto provocado por uma queda de escada e a mais nova conseguiu fugir com meu genro e meu neto. - disse ele com pranto na voz.
- Posso entender como deve ter sido, aposto que foi na prisão que você descobriu o vampirismo e foi com ele que você voltou à sua juventude perdida. - falei um tanto séria.
- Sim Patty, foi o meu bilhete premiado! - exclamou ele com as presas à mostra.
- Pereira, você reviu a Xica quando você e ela já eram vampiros? - perguntei com medo da reação dele, já que ele não gostava de Francisca da Silva, dita Xica, por motivos que eu já sabia e certamente vocês que lêem já devem saber.
- Não sei por que essa cara de medo, respondo essa pergunta sem ficar zangado, afinal, nunca tive oportunidade de pedir perdão pelas vezes que ofendi Xica, então minha resposta é sim, a encontrei uma vez pouco depois de 1880 em Versalhes, só que ela me pareceu não lembrar de nada do que aconteceu entre ela, Fernandes, Violante e os poderosos do Tijuco na época que ela viveu lá, tanto que ela nem lembrava de mim, dizendo que não me conhecia e nem as pessoas que eu citei quando falei com ela. - respondeu ele com dúvida, parecendo que até hoje não entendera o episódio que testemunhara a mais de 100 anos.
Percebi que a resposta dele, apesar de ser mais comprida, era exatamente o que Guiomar tinha me contado no hotel naquele dia, só que o tempo e o lugar eram diferentes.
- O que há com você Patty? - perguntou Teodoro, vendo que eu estava com cara de espanto.
- Foi exatamente o que Guiomar me contou, só que no caso dela foi em Lepzig, Alemanha, em 1920. - respondi fazendo uma comparação.
- Caramba, nunca imaginei que amnésia fosse possível com um vampiro! - exclamou Pereira.
- Mas é, pelo que o Mercúrio me disse. - falei.
- Se isso é verdade, é bem raro isso acontecer com um vampiro, a não ser que ele leve uma pancada extremamente forte ou seja vítima de um incêndio de proporções catastróficas. - falou ele de modo espantado.
- O que você sabe sobre o incêndio de 1875 que ocorreu em Bordéus e separou Xica e João Fernandes pela segunda vez? - perguntei vendo a expressão que estava estampada no rosto dele, que era a de quem sabia mais do que aparentava, já que vampiros se reencontram com facilidade.
- Eu sei bastante sobre isso, que o incêndio foi dos piores possível, que não sobrou quase nada da casa, além de que o fogo foi causado por uma turba de gente enfurecida.- respondeu ele.
- Isso em parte Fernandes já tinha me contado, só que não imaginava que tinha sido tão catastrófico assim. - falei.
- Se você tivesse visto e tentado ajudar como eu fiz, nossa, você teria corrido o mais terrível risco da sua vida! - disse ele, que me contou que tentara evitar que o incêndio se tornasse uma tragédia maior, mas que não conseguiu por que mesmo com seus poderes não pôde conter o fogo que se alastrou rapidamente pela casa.
__Depois ele se despediu dizendo que tinha que se preparar para o show de strip da noite no hotel e eu retribuí a despedida, dizendo que passaria no hotel um dia destes para vê-lo.
__Depois de umas duas horas, todos que moravam comigo já estavam em casa e eu ainda no meu quarto imaginando até onde a história que estava passando ia chegar.
__O outro dia chegou como qualquer dia para os outros, só que pra mim ele chegou como mais um de incerteza por conta de tudo que eu passava e descobria.
Depois de tomar o café da manhã, escovar os dentes e me arrumar, saí pra universidade pra ver as notas que iam definir se tinha passado de semestre, já que as aulas oficialmente tinham acabado a 3 dias.
__Quando cheguei lá depois de andar quase meia hora de ônibus, vi um bando de gente esperando pra entrar e fiquei lá aguardando.
__Enquanto esperava, resolvi passar na biblioteca pra ler um pouco. Quando entrei, ela estava completamente vazia, já que ninguém ia lá no começo da manhã a não ser a bibliotecária, que sempre se atrasava 35 minutos, mas que hoje, pelo que soubera pelo porteiro, não ia vir por motivos de saúde.
__Estranhei o fato dela estar aberta sem ninguém estar atendendo, mas, quando vi entrar pela porta um homem de cara coberta pela gola grande de um casaco, percebi que ele ia substituí-la na função de bibliotecário temporário.
__Achei estranho ele estar com aquele casaco enorme, sendo que estava um calor de 30 graus, mas achei que ele podia estar gripado ou algo do gênero, então não liguei.
__Depois tudo correu como o dia previa na universidade e após terminar tudo, decidi ir até a reitoria pra trancar a matricula por causa da história de procurar uma vampira desmemoriada.
__Subi as escadas e fui até a reitoria pra fazer o que falei no parágrafo acima. Entrei na sala do reitor e me surpreendi ao ver meus melhores amigos lá, perguntando:
- O que vocês fazem aqui?
- Vamos trancar a matrícula pra te ajudar Patty, não vamos te deixar sozinha. - disse a Mia em nome do Grupo dos 9, como a nossa turma era chamada desde os tempos da primeira série, quando nos conhecemos.
- Vocês são loucos, isso é muito arriscado! - exclamei, vendo a loucura que eles queriam cometer.
- Patty, você esqueceu da promessa que fizemos uns aos outros, cortando nossos dedos e juntando nosso sangue, nós prometemos uns aos outros que protegeríamos e zelaríamos pela vida, integridade física e moral uns dos outros sem se importar com os riscos que poderíamos correr ou não se lembra do lema dos três mosqueteiros que dissemos juntando nossas mãos: "Um por todos e todos por um" ?- perguntou Estrela com sua forma decidida de ser e que tanto nos marcava.
- Um por todos e todos por um! - exclamei emocionada com o risco que eles queriam correr por mim, mesmo que isso pudesse arriscar a vida de todos nós: Estrela, Mia, Michele, Vick, Roberta, Ângelo, Lino, Miguel e eu, Patrícia, que me sentia um tanto culpada por eles quererem me ajudar, já que eu tinha aceitado a proposta do Fernandes e contado pros meus amigos a história que o vampiro loiro confirmou sem se importar, o que fez com que eles quisessem correr todo esse perigo, o que me deixava muito mal.
__Depois de meia hora esperando, entramos pra falar com o reitor e dissemos que íamos trancar a matrícula por um tempo, pois estávamos com um problema que ia demorar um bom tempo pra ser resolvido, o que deixou ele surpreso e perguntando:
- Nossa, mas o que será tão sério pra vocês trancarem a matricula assim? - perguntou ele, coçando a cabeleira grisalha.
- Não podemos dizer o que é, apenas que temos que ajudar um amigo que precisa muito da gente pra reencontrar sua amada perdida. - respondeu Michele de modo romântico.
- Que nobre atitude a de vocês, mas existem sites da internet e programas de tv que podem ajudá-lo a reencontrar a pessoa amada. - disse ele sorrindo.
- Acontece que o caso dele é especial e nenhuma dessas coisas dará certo. - disse a Mia.
- Como assim especial? Não estou entendendo. - disse o reitor desconfiado.
- Espere senhor reitor, já vamos explicar. - falei, reunindo todos eles comigo fora da sala.
__Quando eles perguntaram o que eu queria falar, respondi:
- Gente, não podemos contar nada sobre o Fernandes pra ele, ele diria que somos loucos ou que estamos chapados, nunca acreditaria na gente!
- Isso se ele não souber de alguma coisa que nós não sabemos, pois um dia ouvi uma conversa muito estranha entre ele e um cara todo de preto quando passei pelo escritório dele e era justamente sobre essa história que eles falavam, do Fernandes com a Xica. - disse o Lino com cara de medo.
- Você tem certeza do que tá dizendo? - perguntou a Vick rindo.
- Que pergunta idiota Vick, claro que ele tem, ninguém brincaria com algo assim! - exclamou Mia, que em seguida disse:
- E além do mais, eu sempre achei esse reitor muito esquisito, sempre com roupas escuras, cara fechada, óculos escuros, pele branca demais quase pálida, quase sempre mudo, a não ser quando vai avisar a faculdade toda de algo importante.
- Isso é verdade, a Mia tem razão. - disse Ângelo pensativo.
- Será que............? - perguntou a Michele fazendo cara de quem ia perder o ar.
- Não, isso é impossível! - exclamou Miguel que entendeu perfeitamente o que ela queria dizer.
__Depois de 2 minutos entramos de volta na sala e o reitor perguntou:
- Vão dizer o motivo?
- Sim, mas antes queremos te perguntar uma coisa: você conhece alguém chamado João Fernandes de Oliveira? - perguntei seriamente.
__O reitor, ao ouvir a pergunta, quase engasgou com o café que tomava na hora e nos respondeu bravo:
- Mas que coisa mais absurda, eu sequer sei quem é esse!
- Ora senhor reitor, o Lino nos contou que você falava sobre a história de Xica da Silva e João Fernandes com alguém vestido de preto um dia destes aqui no seu escritório. - falou Mia séria.
- O que isso tem de mal, esqueceram que sou formado em história? Podia muito bem estar fazendo um estudo e mesmo que fosse, isso não interessaria a vocês, pois não tenho o costume de contar minha vida pessoal à ninguém! - exclamou ele ainda zangado.
- Seria um estudo se você não estivesse falando que seria muito difícil achá-la, pois ela estava sem memória e mais algumas coisas que certamente o senhor lembra muito bem que estava falando com um alguém de nome Isidoro ou Conde da Barca, como você se referiu a ele na maior parte da conversa. - disse Miguel encarando-o.
- Oras, que coisa mais absurda e com que direito você fica ouvindo conversa dos outros?! - exclamou o reitor, que ficou tão zangado que nem se deu conta que estava nos mostrando duas adoráveis presas.
__Todos nós ficamos sem reação, exceto a Michele, que fez um tremendo escândalo dentro da sala:
- Um vampiro, um vampiro!
- Cala a boca sua poia, você tá querendo que a coisa piore?! - exclamou o Ângelo tapando a boca dela.
- Gente, a situação aqui ficou complicada, melhor a gente conversar direito. - falou a Estrela, que apesar da sua sempre completa calma, estava assustada além do que era permitido.
__Quando percebeu que tínhamos visto o segredo que o envolvia, ele tapou a boca com as duas mãos e não pôde evitar de ficar vermelho como uma pimenta.
- Então é por isso que você quase sempre fica trancado no escritório, nunca sai no sol, usa sempre roupas em tom escuro, quase nunca fala, tem a pele branca quase pálida- disse Mia com jeito de quem ria.
- Minha nossa, como pude me deixar levar pelas emoções?! E agora, o que eu faço? - perguntou ele desesperado.
- O senhor vai ter que contar o resto da verdade, é só o que você pode fazer. - disse Vick.
__Todo mundo riu e ele ficou mais constrangido ainda, porém se emocionou ao começar a contar sua história:
- Na verdade me chamo Bartolomeu Guimarães e era o contratador de uma outra cidade do sudeste na época da mineração. Era colega de João Fernandes de Oliveira na época em que estudávamos e com o tempo, fomos ficando muito amigos, quase irmãos. Chegamos até a cortar nossos dedos com lâminas e fazer um juramento sobre nossos sangues, jurando nunca deixarmos de ser amigos, mesmo que a situação fosse das piores, pessoal, política ou econômica e principalmente, nos ajudarmos, se preciso até matarmos para protegermos um ao outro! Porém, a vida quis nos separar física e psicologicamente.
__Só que nós não queríamos que o destino interferisse em nossas vidas e nós sempre dávamos um jeito de escrevermos um para o outro ou de nos vermos simplesmente. Era difícil por conta de nossos cargos e das tarefas relacionadas com eles, mas tínhamos que nos ver ou escrever de qualquer jeito, nem que demorasse um bocado de tempo.
__Então ele chegou ao Tijuco e ficou noivo de uma senhorinha chamada Violante Cabral, porém ele se apaixonou por uma das escravas da casa, chamada Xica da Silva e resolveu assumir ela como sua mulher, certamente vocês devem saber muito da história, por isso não estou dando detalhes, mas com certeza vocês sabem como isso ficou, então conto que no começo não gostei, mas depois a conheci, percebendo que eles eram feitos um para o outro e aí ajudei no que pude para que a história não acabasse, porém como a ex-noiva dele era capaz de tudo para ficar com ele, ele foi obrigado a casar-se com aquela bruxa ao ver sua amada condenada à fogueira por uma falsa acusação de bruxaria que foi provada por armação dela, maldita miserável.
__Apesar de ter se casado com a Cabral, ele nunca a tocou e vivia espancando ela seguindo meu conselho para castigá-la por todo o mal que lhe fez e quando ele e Xica se foram deste mundo mortal, vocês sabem.
- Uma parte a gente não sabe e diga-se, estou chocada com a última parte do que você contou. - disse Estrela impressionada.
- É de se esperar que você fique assim, mas se você for ver, ela não valia nada e mereceu tudo o que passou nas mãos de meu amigo. - disse ele com desprezo, em seguida contando que Fernandes virou vampiro e voltou ao Tijuco unicamente para buscar sua amada e com ela viver o resto da eternidade, que eles viveram em paz durante quase 80 anos até que um incêndio em Bordéus, na França, em 1875 estragou tudo de novo e que até hoje ele não sabia quem tinha causado tal catástrofe, já que uma turba de furiosos colocou fogo na mansão que eles moravam induzidos por alguém que ele nunca soube quem foi, mas que quando descobrisse, o mataria e que desde o incêndio nunca mais viu seu irmão de sangue.
- Caramba meu, isso é muito surpreendente! - exclamou Michele completamente assustada.
- Por que o senhor trocou seu nome para Roberto Sandro DiToldo?- perguntou Roberta, estranhando que ele tivesse trocado de nome, já que muita gente acredita em coincidência de nomes e datas.
- Por causa dos caçadores de vampiros, não quero correr o risco de ser descoberto e morto- respondeu Bartolomeu.
__Nós percebemos o que ele quis dizer com aquilo e ficamos um tanto assim, mas, ele queria se proteger e compreendíamos perfeitamente aquilo.
__Todos saímos com cara de surpresa com o inesperado rumo que a história tinha tomado mas não sem antes eu dizer sorrindo:
- Se você quiser rever o Fernandes, ele está aqui em São Paulo.
- É o que mais quero na vida Patty, por favor, diga-me onde ele está! - exclamou Bartolomeu emocionado.
- Aqui tá o endereço dele, se você quiser vá até lá e mate suas saudades. - falei emocionada, pegando o endereço do Fernandes que tava na minha bolsa.
- Você se importa de vir comigo até lá? Quero que você testemunhe esse momento maravilhoso da minha vida! - exclamou ele com lágrimas de alegria.
_Depois que todos saímos do campus da universidade, me despedi dos meus amigos heróis e fui com Guimarães até o apartamento do Fernandes. Nós andamos de ônibus durante 25 minutos de mãos dadas emocionados até chegar ao nosso destino.
__Descemos do coletivo e fomos até o prédio do vampiro loiro. Ao chegarmos, subimos até o décimo primeiro andar e fomos até o número 1.115 e eu disse pra ele esperar escondido um pouco até eu preparar o terreno.
__Bati na campainha e fui atendida por Linus, que me perguntou:
- Oras, já estava com saudades de você Patty, por onde andou e aposto que quer falar com Fernandes, não é?
- Também tava com saudades de você Linus, andei fazendo muitas coisas e realmente quero falar com ele, é um assunto que interessa muito ao Fernandes. - falei sorrindo.
- Vou chamá-lo, é que ele está um pouco ocupado agora. - disse Linus calmo.
__Esperei dois minutos até um vampiro loiro e belo aparecer na sala e me perguntar:
- O que há Patty, tem algo errado, está preocupada ou alguma coisa do gênero?
- Nenhuma delas, eu quero é te perguntar sobre um grande amigo seu chamado Bartolomeu Guimarães, você pode me falar dele? - respondi.
- Desde aquele incêndio maldito, perdi minha Xica e nunca mais o vi meu Deus! - disse ele quase aos prantos e me contando a história de sua amizade com ele, que foi a mesma que ouvi daquele que era o reitor da minha universidade e que confirmava o que mais tinha chocado Estrela.
- Olha Fernandes, eu sei que Violante não valia nada, mas pra que ficar fazendo ela de saco de pancadas? - perguntei um tanto chocada também.
- Porque eu queria que ela sofresse exatamente o que a madrasta dela sofria nas mãos do sargento mor quando era casada com ele, fazer ela engolir o próprio veneno, pagando todo o sofrimento que me causou e o mal que fez à minha amada! - exclamou ele furioso.
__Não pude deixar de ficar com medo quando ele rangeu aqueles caninos de fúria e ele, vendo que eu estava com medo, disse ironicamente:
- É assim que fica um vampiro furioso Patty.
- Isso eu já sabia, mas você se superou dessa vez. - falei ainda apavorada, pois ele parecia o diabo em pessoa quando me mostrou enfurecido suas presas.
__Ele riu, mas depois fez cara de desconfiado e me perguntou:
- Por que você me perguntou sobre Bartolomeu?
- O reitor da universidade onde eu estudo falou sobre ele um dia destes e eu ouvi. - respondi mentindo.
- Por acaso ele sabe de algo sobre mim?!- perguntou ele apavorado com a possibilidade de que alguém mais além dos meus amigos e eu soubesse sobre ele.
- Deve saber, mas não que você é vampiro. - respondi sorrindo.
- Então você veio aqui por quê? - perguntou ele ainda com desconfiança.
__Não respondi, levantei, fui até a porta e abri-a, fazendo meu acompanhante entrar e perguntar com os olhos cobertos de lágrimas:
- Lembra de mim, João?
- É você mesmo Bartolomeu, é você?! - perguntou Fernandes reconhecendo-o ainda sem acreditar, se levantando do sofá emocionado e andando na direção dele.
- Sim meu amigo, sou eu mesmo! - exclamou Bartolomeu chorando e com os braços abertos à espera de um abraço.
__Os dois se abraçaram chorando como duas crianças e Fernandes falou aos prantos:
- Pensei que você tinha morrido meu amigo, mas você está aqui vivo, vivo!
- Sim meu irmão e prometo que nunca mais vamos nos separar daqui em diante! - disse Bartolomeu muito feliz.
- Patty, você é um anjo, um anjo de cor negra com a alma mais pura do que a de qualquer branco que conheci! - disse ele emocionado e me abraçando.
- Eu sabia de alguma forma que você queria se encontrar com ele e que ele queria te encontrar. - falei sorrindo sem deixar de mostrar uma lágrima de comoção com aquela cena linda do reencontro de dois amigos.
- Assim você só prova que é a melhor pessoa que eu já conheci nos dias atuais. - disse Fernandes me dando um beijo no rosto como demonstração de carinho.
__Senti um arrepio com os lábios frios dele em minha pele, mas percebi que o coração dele era de uma bondade sem fim, o que me comoveu profundamente, porém eu não concordava com o fato dele querer se vingar de modo tão cruel daqueles que um dia fizeram ele sofrer.
__Então eu saí de lá deixando os dois amigos sozinhos para botar em dia a conversa atrasada em mais de 100 anos, pensando em como é bonito ter muitos amigos fiéis e que tudo fariam pela gente, mesmo que Bartolomeu fosse um dos poucos verdadeiros que Fernandes tivesse.
__Ia andando pela rua em direção à parada de ônibus quando ouvi uma voz gutural do meu lado:
- Xica da Silva, que felicidade te achar.
__Me virei para trás e vi um homem alto, loiro escuro, olhos castanhos muito sensuais cobertos por um óculos escuro, corpo de atleta, pele branca pálida e que estava com a mão esquerda no meu ombro brincando com meu cabelo.
- Você está enganado, na verdade sou Patrícia Puentes e pelo jeito você é um vampiro. - falei bem baixinho só pra ele ouvir.
- Sim, você acertou querida e como você pode ser outra se o rosto é o mesmo? - falou ele maliciosamente no meu ouvido e com mesmo tom que eu.
- Existem pessoas idênticas de aparência, mas diferentes de personalidade. - respondi séria.
- Essa é uma verdade profunda. - disse ele sorrindo.
- Você já acredita em mim ou ainda não está convencido? - perguntei.
- Agora dá pra ver que você não é ela, as diferenças entre vocês são evidentes. - respondeu ele rindo.
- Posso adivinhar quem é você?- perguntei com graça, olhando-o de cima a baixo.
- Pois tente. - disse ele me olhando da cabeça aos pés.
- Conde Valadares, eu suponho. - falei lembrando do que vira nos escritos do meu pai sobre a tão complexa história de Xica e mesmo que ele fosse 50 anos mais novo que a gravura que estava nos escritos do meu pai, os traços arrogantes eram os mesmos, o que não deixava dúvida que era ele.
- Suposição certa, Dona Cópia da Xica. - falou ele ironicamente, que depois disse:
- Sabia que eu achei lindo esse estilo seu?
- Agradeço o elogio. - falei, me despedindo.
- Então até outro dia, adorável patricinha. - disse ele dando risada.
__Eu tinha pavor desse tipo de apelido, mas não reagi mediante a beleza imensa daquele vampiro, mesmo sabendo que por dentro ele não era exatamente um bom caráter, bem pelo contrário, era um dos piores que eu já tinha conhecido.
__Peguei o ônibus depois de 5 minutos esperando e sentei no primeiro banco que vi, pensando em tudo o que passava naquele momento tão conturbado em que estava a minha vida, tanto que nem ligava pra qual parada eu ia descer.
__Andei de ônibus por mais de uma hora até que resolvi descer, percebendo que parei numa praça em que nunca tinha ido, mas que tinha ouvido falar que estava desativada a mais de anos e com uma casa abandonada que fora de um vereador da época do início da república, que me espantava por sua conservação, já que a prefeitura nem se preocupava com aquele lugar perdido no tempo e no espaço.
__Porém ao chegar ali perto da casa, senti uma paz que não sentia desde que essa história tinha começado, ficando encantanda com o que aquele lugar transmitia, entrando sem me importar se tinha alguém ali, subindo e descendo escadas, abrindo e fechando portas, andando de um lado pra outro, encantada com aquele universo paralelo existente ali, tanto que andei naquele lugar por horas.
__Quando me dei conta já era noite e percebi que aquele lugar ficava assustador quando anoitecia, lembrando que um lugar como aquele podia ter bandidos esperando pra me pegar e aquela paz na qual eu estava desapareceu completamente, me fazendo querer ir embora dali naquele momento sem pestanejar.
__Na hora em que estava para sair dali, notei que tinha algo se mexendo na parede esquerda e logo vi que ali tinha algo muito mais do que errado e quando ouvi uma risada sinistra atrás de mim, me virei e vi um alguém alto, cabelos pretos, olhos castanho-esverdeados, magro, todo vestido de preto e que me olhava rindo, exibindo os maiores e mais afiados caninos que eu já tinha visto em minha vida e assim eu o reconheci como sendo o homem que eu vira entrar na biblioteca da faculdade logo pela manhã, o que me fez perguntar com voz de nervosismo depois de lembrar dos fichários históricos do meu pai:
- Por acaso você é Isidoro, o Conde da Barca?
- Sou eu mesmo Xica e não era conde dos barcos como você me chamava? - disse ele com uma voz muito sinistra.
- Não sou Xica, meu nome é Patrícia, tenho 20 anos e sou uma uinversitária que está passeando. - falei com medo na voz.
- Passeando nesse lugar perdido no tempo? Será que seu papai nunca te alertou que esses lugares são perigosos quando anoitece? - perguntou ele rindo e descendo as escadas tão rapidamente que ele parecia não precisar das pernas para correr.
__Logo percebi que ele não tinha as melhores intenções e tratei logo de abrir a porta pra ir embora, sendo bruscamente agarrada pelo pulso por Isidoro, que me disse sorrindo sinistramente:
- Fique um pouco mais para me fazer companhia, querida!
- Não fico não, não mesmo! - falei me soltando dele e saindo correndo dali direto pra rua sem me importar que ela tivesse numa escuridão total.
__Percebi logo que ele veio atrás de mim disposto a me pegar, mas me virei e disse:
- Pare aí mesmo onde você está!
__Minha cruz ficou iluminada com a luz da lua, fazendo ele dar um grito horrível ao olhá-la, repelindo o símbolo cristão que estava comigo.
__Aproveitei a deixa pra sair correndo dali direto pra um bar que estava perto pra perguntar ao balconista qual o ônibus que ia pro bairro onde eu morava, ouvindo dele uma resposta consoladora, porém descobrindo que a parada ficava a quase 8 quadras de onde eu estava, o que me deixou desesperada, pois como eu ia sair dali com uma coisa chupadora de sangue atrás de mim?
__Eu fiquei pior do que antes apesar de estar com meu crucifixo, pois eu não sabia do que Isidoro era capaz, afinal, vampiros tinham muitos truques debaixo da manga.
__Mesmo sabendo que corria risco, tive que sair dali, pois já estava ficando tarde e eu queria dormir cedo, pois amanhã eu tinha um compromisso importante ao qual não podia faltar, porém de repente, um morcego voou bem do meu lado quase rasgando a pele do meu pescoço, que escapou por milagre do ataque mortal do morcego, que certamente era Isidoro transformado.
__Quando vi o morcego voando de novo na minha direção, tratei logo de arrancar o crucifixo do pescoço e atirá-lo na direção do bicho voador, que fez um barulhão guinchado ao receber um golpe de cruz na cara e fez um barulho ainda maior quando recebeu uma estaca de "prêmio extra" no lado direito do peito.
__Quando vi o morcego despencando do céu todo queimado no lado esquerdo do rosto e ensangüentado no direito do peito, dei um suspiro de alívio e me assustei ao ver quem tinha dado o tiro, Linus, que sorriu dizendo:
- Senti que você estava em perigo e vim te ajudar.
_Vi quando o morcego voltava à sua verdadeira forma humana se contorcendo de dor e dizendo com uma voz grotesca:
- Maldito miserável e você, sua....... - ele não conseguiu terminar a frase por ter começado a cuspir sangue sem parar.
- Ninguém mandou você atacar a Patty seu meliante!- exclamou Linus zangado.
__Ele desmaiou em seguida por perda excessiva de sangue, mas eu sabia que ele não tinha morrido, pois um vampiro não morria apenas por perda de sangue. Linus, ao vê-lo daquele jeito, pegou-o nos braços e o levou para a casa onde eu estava até 20 minutos atrás e o deixou por cima de um sofá. Eu, que tinha ido atrás dele não sei porquê, perguntei ao ver Isidoro mais branco do que ele era na verdade:
- Ele vai ficar assim quanto tempo mais ou menos?
- Do jeito que ele sangrou, eu duvido que ele se recupere logo, ele vai ter de beber muito sangue pra se recompor. - respondeu Linus olhando o enorme ferimento que estava no peito de Isidoro.
__De repente, um alguém de cabelos castanho escuros, olhos verdes, bigode, alto, um pouco menos magro que Isidoro, todo de preto apareceu na sala e o olhou durante dois minutos para depois perguntar pra gente com voz de quem estava furioso:
- O que houve com ele, algum de vocês o atacou?!
- Não, nós só o encontramos desse jeito e o trouxemos pra cá. - respondi mentindo e tomando a frente da situação.
- Como foi que ele foi atingido dessa maneira? - perguntou o tal, que pelo jeito era vampiro também e que olhava com espanto o ferimento.
- Não sabemos, como já disse, somente achamos ele assim perto da praça. - respondi com outra mentira.
- Esses caçadores são muito atrevidos, mas por sorte não foi pior, se tivesse sido, eu arrancaria as tripas desse pulha! - disse o cara enfurecido.
- Se você der bastante sangue pra ele, logo vai curá-lo e além disso, posso saber seu nome pra entrar em contato e saber notícias dele? - perguntou Linus fingindo ser amigável com Isidoro.
- Obrigado pelo conselho e me chamo Petroska, Yuri Petroska. - falou ele sorrindo e deixando à mostra seus afiados caninos.
__Nos despedimos e saímos daquele covil de monstros, sendo que Linus me ofereceu carona pra que eu fosse pra casa e eu, enquanto estava no carro com ele, perguntei:
- Por que você não o matou?
- Acho que não convém fazer isso, pois depois de saber do que sou capaz pra te defender, Isidoro não ousaria tentar te tocar de novo e se ele tentasse outra vez, iria pegar seu passaporte para o inferno. - respondeu ele sem me olhar e prestando atenção no trânsito.
- Tomara que não e se Isidoro contar pro Yuri que foi você que o atacou, você está frito literalmente. - falei apavorada.
- Quero ver aquele bigodudo me pegar, eu acabo com ele antes dele dar o primeiro tiro! - exclamou Linus rindo.
- Não pense que é fácil assim, você não sabe do que ele pode ser capaz. - falei, considerando tudo o que eu sabia sobre vampiros.
- Todos nós temos poderes iguais Patty, o que faz com que ele não tenha vantagens sobre mim e eu não sobre ele- disse Linus.
- Será que você sabe que vampiros treinam seus poderes para torná-los imbatíveis aos outros vampiros e humanos? Além disso, a imbatibilidade desses poderes pode não ser quebrada nem com as coisas que normalmente combatem vampiros. - falei sem entender como aquele mordomo vampiro doido podia ficar tranqüilo numa situação daquelas, em que não só ele podia correr risco como eu também.
- Outra coisa, onde anda o Fernandes hoje? - perguntei vendo que o vamp loiro não tinha aparecido pra me pregar os sustos que ele eventualmente me pregava quando aparecia.
- Ele resolveu se divertir e foi para a balada em alguma boate do centro, aposto que deve estar bebendo e dançando de montão. - falou Linus rindo.
- E a gente em perigo de montão, correndo risco por causa de um súbito ato seu! Isso é uma merda, saco! - exclamei louca da vida.
- Deixa disso Patty, nada vai nos acontecer, pois você soube muito bem como tapear aquele vampiro bobão. - disse ele rindo além da conta.
- E se ele não acreditou em mim, como é que fica, será que você já pensou nisso? - perguntei pensativa e espantada.
- Do jeito que você se expressou, é difícil você não tê-lo convencido, a não ser que ele seja muito desconfiado, algo que logo vi que ele não é. - riu ele de novo.
- Vampiros sabem fingir como ninguém. - falei tentando cortar o argumento dele.
- Não todos - disse ele gargalhando outra vez.
__Eu estava em desespero, sem saber o que fazer, completamente com a cabeça fora do lugar, mais nervosa do que de costume.
__Enquanto minha cabeça estava cheia de caraminholas, Linus ouvia e cantava alegremente uma música dos Bee Gees no rádio, dizendo para eu me acalmar, que em 20 minutos chegaríamos na minha casa.
__Depois desse tempo chegamos e eu desci na frente de casa dizendo agora mais calma:
- Obrigada pela carona, Linus, agradeço por ter me salvo apesar de ainda achar que você cometeu uma loucura.
- Sei disso, mas o que importa é que Isidoro nunca mais ousará tocar em você - disse ele alegre.
- Não sei se posso dizer o mesmo. - falei pensando no risco que estava correndo e que agora corria mais do que nunca.
- Não se preocupe Patty, sei que nada de ruim vai ocorrer com você- falou ele dando risada e logo saindo com o carro.
__Entrei em casa e cumprimentei todos os meus familiares, quando o Alberto perguntou muito preocupado em nome de todos da família:
- Patty, onde você esteve o dia todo?
__Contei como foi meu dia e minha mãe falou assustada:
- Por favor filha, tome cuidado com os lugares onde você vai e com as pessoas com quem conversa!
- Eu sei mãe, eu sei, porém eu não posso evitar o que vai acontecer! - falei em desespero.
__Ninguém disse mais nada e eu subi para o meu quarto apavorada, imaginando como seriam os próximos dias que o destino ia me dar, porém eu nem imaginava que uma coisa bem pior estava chegando.

Procura-se-capítulo 5 : Lembranças que não são suas.

(Por : Renata Cezimbra)
__Cheguei em casa debaixo de uma tremenda chuva depois de 10 minutos e imaginando como uma vampira podia perder a memória, eu ainda estava sem acreditar, mas qualquer pista, por mais absurda que ela fosse, era melhor que nada.
__Depois de cumprimentar meus familiares, subi pro meu quarto e me tranquei lá pra refletir no que fazer, quando de repente, alguém disse:
- Ora Patty, o que você andou fazendo o dia todo que não te encontrei?
- Que susto Fernandes! Custava você dizer que estava aí?! - exclamei.
- Calma Patty, vim aqui no meio da tarde te procurar e seu pai disse que você não estava em casa, então fiquei pendurado no teto esperando você chegar. - respondeu ele rindo.
__Não disse mais nada e perguntei o que ele queria e ele me respondeu:
- Quero saber o que você foi fazer hoje à tarde no hotel, que eu saiba uma moça da sua classe não costuma aparecer num lugar como aquele. - respondeu ele sério. Fiquei sem falar durante minutos, quando ele me cutucou:
- Você não quer responder ou o gato comeu sua língua?
- É que se eu responder, você vai achar que estou doida. - falei receosa.
- Fale a verdade apenas. - disse Fernandes sério.
__Contei tudo o que acontecera comigo desde o encontro com Guiomar no restaurante até a minha ida no hotel induzida por um pensamento e aí foi ele que ficou mudo durante minutos até que eu cutuquei ele:
- Agora foi a sua língua que o gato comeu?
- Patty, você tem certeza do que me contou? - perguntou ele de forma espantada.
- Por que você acha que Guiomar mentiria? Eu acho que ela não diria isso à toa. - respondi sentando perto do vampiro loiro.
- Só que tem um detalhe Patty, esse tipo de coisa com um vampiro é praticamente impossível e além disso, essa coisa que passou com você na hora em que você ia pra casa também é muito estranha. - disse ele me observando com olhar misterioso.
__Contei pra ele sobre o que o Mercúrio me disse e ele me olhou de modo misterioso outra vez, dizendo:
- É estranho você ter esse tipo de "premonição", que eu saiba só vampiros possuem essas coisas, a não ser que você tenha poderes paranormais.
- Até parece, acho que deve ter sido uma coincidência isso que me aconteceu, pra que eu achasse essa pista, se é que ela te serve pra alguma coisa. - falei não acreditando no que ele me dissera.
- Se eu não consigo detectar Xica, é porque ela realmente está desmemoriada. Só que há uma coisa: o que pode ter acontecido pra ela ficar assim? Que eu lembre, quando fugimos e nos perdemos um do outro, ela não levou nenhuma batida mais forte na cabeça. - falou ele, tentando criar alguma hipótese.
- Acho que se você me contar o que aconteceu com vocês dois, ficará mais fácil da gente construir uma hipótese. - falei dando uma idéia.
- Pra mim é difícil lembrar de algo assim, foi horrível demais nossa separação! - exclamou ele em princípio de lágrimas.
- Compreendo. - falei percebendo que tipo de coisa ele me contaria.
__Ele contou que ele e Xica viviam em Bordéus em 1875, chupando sangue de bandidos e pessoas más, sem incomodar nenhuma das pessoas da cidade, ajudando-as quando elas precisavam e outras coisas.
__Um dia porém, aconteceu que um alguém falou para toda a população do lugar que eles faziam coisas abomináveis e que planejavam dominar a cidade, fazendo a população se insurgir contra eles, ir até a casa em que eles moravam e lá colocar tochas de fogo, fazendo eles acordarem completamente assustados e sair correndo pelos fundos na tentativa de fugir.
__Porém a casa já estava quase totalmente consumida pelo fogo e eles quase sufocados pela fumaça, com as roupas chamuscadas pelo fogo, quando o teto em chamas desabou diante deles, separando-os por um muro de fogo, o que fez Xica gritar:
- Vai logo meu amor, não quero que você morra aqui!
- Eu não vou sem você meu amor! - gritou ele.
- Vai meu amor, eu sei me virar sozinha! - gritou ela ainda mais alto.
__Ele não a ouviu e foi no meio das chamas tentar resgatá-la, porém um pedaço de madeira com fogo caiu sobre ele e ele perdeu os sentidos.
__Depois ele parou de falar e começou a chorar sem parar.
__Fiquei muito triste ao vê-lo daquele jeito e falei:
- Sei que é difícil pra você relembrar isso que você passou, mas eu sinto que ela está viva, não sei como, mas sinto.
- Você não sabe como sinto falta da Xica, dos seus beijos, seus carinhos, sua bondade com o próximo em vários momentos, de tudo! -exclamou ele chorando abraçado comigo e colocando a cabeça no meu ombro.
__Não pude deixar de acarinhar os cabelos dele para consolá-lo e passei alguns minutos fazendo-o, quando meu irmão Alberto entrou no meu quarto e disse:
- Não sabia que estava consolando um amigo, desculpe.
- Pode falar o que você quer. - falei vendo que Fernandes tinha me soltado.
- Patty, tem umas garotas na sala querendo falar com você. - falou Alberto, olhando Fernandes com espanto.
__Olhei que Fernandes ainda chorava apoiado na minha escrivaninha e fui até a sala, deixando-o sozinho no quarto com sua dor.
__Quando desci na sala, vi a Mia, a Roberta e a Michele esperando pra falar comigo, falando muito envergonhada e ao mesmo tempo zangada,mas sem demonstrar:
- Boa noite amigas e me desculpem ter ido embora daquele jeito aquela hora, eu tinha que fazer umas coisas e por isso não pude ficar.
- É que queremos te convidar pra ver o próximo show, que vai começar daqui a meia hora, acho que você não vai se importar, né, pois o hotel é a 10 minutos daqui. Além disso, você não vai se importar de dormir um pouquinho mais tarde, não é? - disse a Mia, me convidando pra sair com ela e as meninas.
- Olha, eu até posso ir, mas um amigo meu está inconsolável lá em cima e não seria muito adequado deixá-lo desse jeito. - falei de modo educado, já que estava louca da vida por conta do trio aparecer justamente nessa hora, em que o Fernandes se debulhava em lágrimas lá em cima.
- Ah tá, desculpa a gente Patty, se nós soubéssemos que isso tava acontecendo, nem tínhamos vindo. - disse a Michele envergonhada.
- Vocês não tem culpa, vieram sem saber disso. - falei sorrindo.
- Tá bom Patty, a gente vem amanhã, espero que você possa. - disse Mia, sorrindo também.
- Tchau garotas. - falei vendo que elas saíam e se despediam.
__Fechei a porta com um suspiro de alívio escondido e subi para o meu quarto. Chegando lá em cima, vi o Fernandes de pé parado na sacada do dormitório com uma expressão carregada do mais puro e mortal ódio.
- O que está havendo com você? - perguntei um tanto apavorada.
- Simples Patty, as lembranças ruins vieram e estou com vontade de matar aqueles merdas dos seus vizinhos da frente, mas só não o faço por sua causa! - exclamou ele com suas presas à mostra.
__Sinceramente não conseguia entender o jeito dele, que se alternava entre momentos de imensa bondade e pura e cruel maldade, o que me deixava dividida entre confiar nele ou não. Não pensei mais nisso e perguntei, lembrando do que ele me contara sobre o incêndio:
- Como foi que você escapou de lá e não procurou Xica depois disso? - Fui resgatado pelo meu amigo fiel Linus, que veio a ser meu mordomo e quando perguntei por Xica, ele disse que ela estava morta. - respondeu Fernandes sério, mas com tristeza na voz.
- Mas você nunca pensou que ela pode estar viva? - perguntei.
- Pra ser sincero, nunca pensei nisso, pois meus poderes nunca mais a detectaram depois que nos separamos. - disse ele muito triste.
__Sinceramente fiquei um tanto daquela maneira, sem saber se acreditava nele ou não, mas percebi que ele falava a verdade, pois ele estava triste demais quando contou aquilo tudo. Então conversamos por mais um tempo até que eu resolvi dormir, já que eu tinha mais provas no outro dia.
__Então me despedi dele quando vi ele sair pela janela e me atirei na cama completamente cansada e pensando no que os próximos dias reservariam pra minha vida, que já estava mais do que de cabeça pra baixo.
__Não vou contar o que houve no outro dia, já que não ocorreu nada de importante nele e nem nos outros dias até o sábado da outra semana, quando aconteceu algo inesperado.
__Nestes quase 10 dias fiquei estudando, saindo com meus amigos, ficando com minha família, fazendo tudo o que mais gostava, aliviada porque Fernandes não tinha aparecido pra perturbar o Gonçalo e principalmente, tentando descobrir sobre Xica mais do que havia nos fichários do meu pai na tentativa de achar alguma pista que pudesse me ajudar.
__Foi com essa passagem de tempo que chegou um sábado que mudaria pra sempre o rumo desta história.
__Estava em casa lendo quando meu celular tocou e eu atendi, ouvindo a voz da Mia:
- Patinha, posso teconvidar pra ir no Sheraton comigo ver o show do Namor?
- Sabe Mia, eu tô sem nada pra fazer, então você vem me encontrar às 20 horas. Ah, e perguntando, as outras garotas vão também? - falei bastante alegre, já que estava disposta a ver o show que as garotas tanto falavam.
- Claro que vão ou você acha que elas iam deixar de ir porque já viram uma vez?! - disse ela rindo.
- Então tá combinado! - retribuí bem feliz.
__Me arrumei toda e cheguei a pensar em convidar a Mila, só que ela não gostava muito dessas coisas por ser muito envergonhada e como diziam meus colegas, donzela demais. Esperei durante 20 minutos até que vi um bando de 7 jovens se aglomerando no portão de casa, que vi como sendo meus colegas. Desci e disse aos meus pais e irmãos que ia sair, convidando minhas irmãs prair comigo, que aceitaram na mesma hora e fizeram meu pai dizer com aquele senso de super protetor:
- Cuidem-se meninas, não quero que vocês se machuquem, parem na polícia ou.....
- Deixa de ser bobo Mauro, elas já têm idade suficiente pra se cuidarem sozinhas e pra variar, elas não são loucas. - falou minha mãe rindo.
__Nós três saímos rindo e fomos cumprimentadas pelos meus colegas, quando o galinha da turma, o Miguel, falou:
- Rapaz, você sempre falava que tinha duas irmãs bonitas, mas nunca pensei que elas fossem tão gatas! Todo mundo riu e a Lia ficou vermelha, já que ela nunca tinha sido elogiada assim por nenhum garoto, enquanto a Mariana ficou com o ego inflado, sorrindo sem parar pro Miguel, que ficou dando corda pra ela enquanto a gente ia pro hotel, conversando e rindo pra caramba. Quando chegamos, o Miguel, o Lino e o Ângelo ficaram babando na frente do cartaz da Morgana, enquanto nós ficávamos admirando o cartaz de Namor, deslumbradas com a beleza dele, apesar de eu ter ficado um tanto cismada com a cara dele, pois ela me lembrava alguém e eu não tinha gostado nem um pouco daquela suspeita, pois ela ia na mais inesperada direção, uma que eu não queria seguir.
__Aquela cisma ficou comigo durante todo o tempo antes do show, tomou conta da minha mente até a hora em que a apresentadora anunciou a entrada de Namor no palco, fazendo as garotas gritarem enlouquecidas.
__ Quando ele começou o show de strip, as garotas deliravam com aquele homem de corpo musculoso e rosto bonito que tirava a roupa dançando sensualmente pra todo mundo ver. Só que quando ele me olhou, dançando com aquele sexy embalo, comecei a sentir uma terrível dor de cabeça, que parecia uma prensa pressionando minhas têmporas. De repente, desmaiei no meio do teatrodo hotel, o que deixou meus amigos e irmãs desesperados, tentando me acordar.
__Fiquei desacordada por 3 minutos até que despertei, vendo todo mundo na minha volta e a Estrela perguntando:
- Patty, o que houve com você amiga, tá bem?
__Olhei pra todos feliz por estar bem e viva, mas quando vi o stripper, comecei a gritar feito histérica:
- Pereira, fique longe de mim, fique longe!
__Todo mundo que tava ali me olhou enquanto eu, já de pé, olhava-o apavorada percebendo que um monte de pensamentos estranhos vinham na minha mente, coisas que não eram minhas, lembranças de uma casa com vários escravos, uma família de portugueses, uma mucama com um bebê quase branco, coisas desconexas que pareciam sem sentido se eu não tivesse visto uma cena de prisão por judaísmo causada por uma denúncia feita pela mulher com o bebê, o que me fez gritar apavorada:
- Maldito Teodoro Pereira, eu te odeio!
__Saí correndo de lá feito louca enquanto muita gente me olhava, achando que eu estava doida ou bêbada. Me tranquei no banheiro das mulheres e fiquei lá pensando no que tinha causado aquela reação tão inesperada, pois eu nunca tinha visto o cara até aquela hora.
__De repente, ouvi passos vindo em direção ao banheiro e um sotaque português com tom zangado, dizendo:
- Podemos conversar, macaca peruquenta?! Acho que nós temos contas a acertar, Xica da Silva!
- Não, eu não vou seu merda! - exclamei brava com o insulto e ao mesmo tempo apavorada com o tom de voz que ele usava, pois ele denunciava que não ia querer um não como resposta.
__Me escondi em um dos banheiros, porém, ouvi um barulhão: um pé arrombando a porta, seguido pelo mesma voz que eu ouvira antes, dizendo:
- Não pense que não lhe encontrarei, macaca! Quando te achar, vou te cravar uma estaca e decapitar-te, maldita que tanto humilhou a mim e minha família!
- Cacete, eu não posso deixar ele me encontrar! - pensei, tentando achar uma solução pro meu problema, que era grande demais.
__Quando vi que não havia mais nenhum barulho dele no banheiro, saí mais do que aliviada, pois ele não mais estava lá, porém de repente, eu fui agarrada por trás por dois braços fortes e ouvi aquela horrível voz de novo:
- Finalmente vou acabar com você sua vagabunda miserável, esperei por isso durante 200 anos!
- Não sou Xica, meu nome é Patrícia! - gritei na tentativa de fazer ele me soltar.
- Você não me engana macaca, apesar de admitir que você fala e se comporta melhor do que antes! - exclamou ele, que apertava cada vez mais meu pescoço, quase me sufocando.
__Senti que minha vida estava correndo um grande perigo e tentava me desvencilhar dos braços dele, mas não podia, pois ele, apesar de não ter braços de fisiculturista, era extremamente forte e não me soltava de forma alguma.
__Estava sendo arrastada para o jardim do hotel de forma brutal, quando ouvi um mega barulho de pancada e fui jogada bruscamente no chão.
__Quando vi, a Estrela estava com um bastão de baseball nas mãos e me disse:
- Eu vi quando ele foi atrás de você, percebi que algo estava errado e resolvi agir.
- Obrigada amiga, você me salvou. - falei abraçando a Estrela e quase chorando.
__De repente, quando íamos embora dali, ele pegou Estrela pelo pescoço e disse:
- Por sua insolência sua barata descascada, eu vou te matar!
- Não mesmo seu filho da puta! - exclamou alguém, que em seguida atirou uma estaca.
__Quando vimos ele se desviar super rápido da estaca e bater com a cabeça fortemente na parede, ficamos felizes ao ver Fernandes, apesar da Estrela ter ficado um tanto assustada ao ver aqueles dentes caninos pontudos se destacando na boca dele.
- Amiga, quem é esse vampiro?! - perguntou Estrela assustada.
- João Fernandes de Oliveira ao seu dispor Estrela e além disso, onde você achou esse bastão? - disse ele de forma cortês.
- Nossa, jamais pensei que um dia conheceria o contratador que entrou pra história de Minas Gerais, nem que ele fosse tão gato e respondendo sua pergunta Fernandes, peguei isso numa parede do corredor, estava servindo de enfeite. - falou ela sorrindo.
- Fernandes, ele vai ficar assim quanto tempo? - perguntei olhando o vampiro lusitano inconsciente no meu lado esquerdo.
- Até ele acordar, mas do jeito que ele escapou da estaca, ele vai ficar assim por um bom tempo. - respondeu ele rindo.
__Nós três saímos de lá e quando chegamos no saguão do hotel, fomos cercados por nossos amigos e a Mia exclamou:
- Ficamos preocupadas com o sumiço de vocês duas, chegamos a pensar que vocês tinham sido seqüestradas!
- Se você soubesse o que eu e a Patty descobrimos, vocês não tem idéia! - exclamou Estrela.
__Todo mundo ficou curioso, querendo saber o que acontecera e aí nós levamos todos pra ver o que ocorrera.
__Quando chegamos no corredor, vimos várias pessoas cercando Namor ainda desacordado e deitado numa maca e um homem de cabelos grisalhos, bem cortados e bigode se aproximou dizendo muito bravo:
- Quem foi que atacou ele, quem foi?!
- Fui eu, porque seu amigo atacou a minha amiga Patrícia! - exclamou Estrela.
- Vou prestar uma queixa por agressão contra você na polícia, sua barata nojenta. - gritou ele quase avançando na Estrela.
- Olha aqui seu merda, todo mundo aqui é muito unido e se você se aproximar da Estrela, nós vamos te encher de porrada! - exclamou Miguel completamente louco da vida.
- Calma pessoal, vamos tentar contornar a situação. - falou Roberta, apartando os ânimos dos garotos, que estavam bem exaltados.
__Fomos todos conversar num lugar mais tranqüilo, era pra ir eu, a Estrela e o senhor que xingara ela, só que todo mundo resolveu ir atrás pra ver como isso ia terminar. O homem, pelo que eu ficara sabendo, chamava-se Rudolph e era empresário de Namor e Morgana.
__Nos sentamos no camarim pra conversar e eu vi Morgana no banheiro tomando banho, sequer imaginando a confusão que tinha acontecido no corredor que ligava o teatro e o jardim.
- Então o empresário perguntou o que tinha acontecido pra que aquela confusão acontecesse e eu expliquei o que tinha acontecido desde que eu chegara no hotel e o cara me olhou apavorado, engolindo ar e dizendo:
- Como é que você sabe o nome dele?! Só eu conheço o segredo dele!
- Eu não sei como aquilo me aconteceu, só sei que houve aquela cena desagradável. - respondi em seguida perguntando séria:
- O segredo dele por acaso é vampirismo?
- Sim, meu Deus! Como foi que você descobriu? - disse ele quase sem voz.
- Porque todos que me confundem com Xica da Silva são assim. - respondi secamente.
- Que história é essa? - perguntaram Estrela e Rudolph ao mesmo tempo.
__Contei a eles tudo o que me acontecera desde o início até aqui, o que deixou os dois pra lá de espantados e os meus amigos e irmãs que ouviam do lado de fora simplesmente sem reação.
__Depois que chegamos num acordo, em que nós ficaríamos de boca fechada e ele não prestaria queixa contra a Estrela, saímos para ir embora e fomos abordados por todos que nos acompanhavam, que perguntaram se aquilo tudo que eu dissera era verdade ou se era apenas pra impressionar Rudolph.
__Não pude mentir pros meus amigos e disse que era tudo verdade, sendo que o Fernandes confirmou com todas as letras. Não entendi porque ele fez aquilo e perguntei à ele o motivo.
- Percebi que posso confiar nos seus amigos. - ele me respondeu sem rodeios.
__As meninas, exceto a Estrela, ficaram se olhando e os meninos riram, falando que aquilo era invenção minha só pra assustá-los, porém, Fernandes se mostrou de forma monstruosa pros garotos, o que deixou eles muito assustados: o Lino quase urinando nas calças, o Ângelo totalmente mudo e o Miguel com cara de quem não acreditou no que viu.
__As garotas todas, depois de ficarem assustadas, ficaram bem empolgadas, pois ele era o cara mais gato que elas já tinham visto.
__Resolvemos ir embora pra casa quando a Vick, toda oferecida, perguntou pra ele:
- Será que você não se importa de dar uma carona pra mim e pras minhas amigas? Estamos todas cansadas depois de toda essa confusão.
- Vick, a gente nem conhece ele direito, como que você faz isso?! -perguntou Roberta danada da vida com ela.
- Não me importo com isso, meu carro é bem grande e cabe todas vocês. - disse ele, nem notando que eu reparava que ele tava de olho nas coxas da Mia e no decote da Vick.
__Então todas nós aceitamos a carona e fomos até a garagem pra entrar no carro dele, ficando impressionadas com a Ferrari importada que tava no box 15 do lugar. A Mia disse sorrindo sem parar:
- Nossa, mas que luxo de transporte!
- Quem pode, pode, quem não pode se sacode. - disse Fernandes, ainda de olho nas coxas da Mia.
__Ela riu toda vermelha, enquanto nós todas entramos no carro e convidamos os meninos, que falaram que iam embora à pé, já que moravam perto, o que era verdade.
__Sentei na frente, as garotas atrás e aí Fernandes saiu do hotel com o carro e foi nos levar em nossas casas, enquanto a Mia comentava baixinho com as garotas:
- Como deve ser esse deus sem roupa?
- Pensa no Victor Wagner pelado na G Magazine. - falou a Vick sem rodeios pro Fernandes escutar.
__Ficava olhando as garotas conversando enquanto o Fernandes fingia que não estava nem aí, quando na verdade ele ria baixinho no volante, se sentindo o galã do momento.
__À medida que as garotas iam descendo do carro, escurecia cada vez mais. Depois que elas todas desceram do carro, ele me perguntou:
-Patty, como foi que começou a confusão lá no hotel? Acho que ele não confundiu você com a Xica apenas, algo mais ocorreu antes, vejo isso na sua expressão.
__Percebi que não podia mentir pro Fernandes e contei a verdade, mesmo que aquilo pudesse fazer ele ter uma brusca mudança de opinião, o que resultaria em algo que pra mim seria muito ruim.
__Ele não disse nada, o que me surpreendeu muito e nessa hora, vi que já estava na frente da minha casa e me despedi dele descendo do carro e imaginando o que ele estava pensando naquele momento, o que me deixava bem apavorada, pois certas coisas têm significados que não queremos acreditar.